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Após operação contra fraude, farmácia de bairro ganha notoriedade indesejável

Dono de drogaria foi alvo de ação que apura esquema que teria desviado R$ 78 milhões em recursos

Por Silvia Frias e Bruna Marques | 29/04/2026 10:23
Após operação contra fraude, farmácia de bairro ganha notoriedade indesejável
Por volta das 8h farmácia ainda estava fechada, na região do Coophavila 2 (Foto: Juliano Almeida)

Aberta em 2012, na região do Coophavila 2, a pequena Drogaria Vitória é mais uma das 384 farmácias espalhadas por Campo Grande (MS). Mas ganhou notoriedade indesejada quando o proprietário, o farmacêutico Reginaldo Pereira dos Santos, foi preso na Operação OncoJuris, que investiga um esquema de desvio de recursos da Saúde que teria movimentado R$ 78 milhões.

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A Drogaria Vitória, localizada na região do Coophavila 2, em Campo Grande, continua funcionando após a prisão do proprietário, o farmacêutico Reginaldo Pereira dos Santos, detido na Operação OncoJuris, que investiga desvio de recursos da Saúde avaliado em R$ 78 milhões. Preso no dia 23, ele foi liberado na segunda-feira (27) após a Justiça indeferir pedido de prorrogação da prisão.

A reportagem apurou que a farmácia funcionou normalmente nos últimos dias, mesmo com a prisão do dono na última quinta-feira. Reabriu no domingo, depois do almoço.

Hoje, a equipe foi até a farmácia, que ainda estava fechada até 8h30. Pela rua, encontrou uma babá de 43 anos, que tem na memória os primeiros passos do estabelecimento. “Eu tinha 13 anos quando vim para essa casa e eles já estavam construindo essa farmácia”.

Contou que sempre foi cliente, comprando medicamentos com receita. Mas, por conta da operação, deve mudar os hábitos. “Depois do que aconteceu, nem com receita quero comprar mais. Vou pra outro canto, mas não compro mais ali não”.

Outra mulher, funcionária de empresa próxima, era cliente de ocasião, já que a farmácia fica no seu trajeto. Diz que já compra remédio para dor de cabeça, mas nunca precisou de medicamento que necessitasse de receita.

Enquanto a reportagem estava no local, um vizinho também foi abordado, mas, neste caso, a conversa foi seca e direta. Era o farmacêutico Reginaldo Pereira dos Santos, proprietário da drogaria e que mora ao lado do estabelecimento.

“Não falei que não quero falar com você?”, disse, acrescentando que não autorizava a imagem dele. A reportagem constatou que a farmácia abriu depois das 8h30.

Após operação contra fraude, farmácia de bairro ganha notoriedade indesejável
Farmácia foi aberta depois das 8h30 (Foto: Juliano Almeida)

Investigação – A Drogaria Vitória, no Jardim Ouro Verde, região da Coophavila 2, tem cadastro ativo desde 2012 e capital social de R$ 49 mil.

No mesmo endereço, consta a sede da Medic Import, aberta em julho de 2025, com capital social de R$ 25 mil. A empresa tem como atividade principal a intermediação e o agenciamento de serviços e negócios em geral, exceto imobiliários, e, como serviços secundários, atividades de consultoria em gestão empresarial, exceto consultoria técnica específica, sociedade seguradora de seguros saúde, preparação de documentos e serviços especializados de apoio administrativo e entrega rápida.

A empresa se apresenta na internet como importadora de medicamentos, auxiliando “pacientes em todo o Brasil, com suporte completo, transparência e comodidade”. À Justiça, apesar de ser dono das duas empresas, Reginaldo declarou renda de R$ 4 mil.

Reginaldo estava entre os quatro alvos da operação: o farmacêutico Luiz Henrique Marino, proprietário da farmácia Multidrogas, em Ribas do Rio Pardo; os advogados Altair Penha Malhada, de 40 anos, e Victor Guilherme Lezo Rodrigues, de 27 anos; e o ex-servidor Guilherme de Oliveira Neto, de 37 anos. Eles deixaram a prisão na segunda-feira (27).

O Dracco (Departamento de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado) havia pedido a prorrogação da prisão, mas a juíza May Melke Amaral Penteado Siravegna indeferiu o pedido, ao considerar que os investigados são primários e não teriam interferido na colheita de provas, sendo suficientes apenas medidas cautelares diversas da prisão. Os alvos devem manter distância e não podem estabelecer qualquer contato entre si.

O advogado Anderson Benites, que representa Reginaldo Santos, disse ontem ao Campo Grande News que o cliente poderá colaborar com as investigações e com a Justiça para que os fatos se esclareçam.

Esquema - De acordo com informações da força-tarefa do Dracco, do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul), da Defensoria Pública e da Receita Federal, o esquema era dividido em quatro núcleos: administrativo, jurídico, empresarial e de importação.

Os advogados teriam papel central na judicialização das demandas, ingressando com ações que obrigavam o Estado a fornecer medicamentos de alto custo. Já os integrantes ligados à administração pública seriam responsáveis por facilitar fluxos internos e dar respaldo às demandas.

Na outra ponta, o núcleo empresarial e técnico, onde se encaixam os farmacêuticos de pequenos estabelecimentos, viabilizaria a compra e o fornecimento dos produtos, muitas vezes importados sem registro na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e revendidos com valores até 70 vezes superiores.

As defesas ouvidas pelo Campo Grande News ontem, após a soltura dos clientes, alegaram que a prorrogação da prisão seria desproporcional e que os fatos serão apurados, o que demonstraria a legalidade das ações deles.