Entrevista com o leproso, um mal que é o Mal
Jão bateu em minha porta em um domingo. O nome é “ Jão” e não “João”, me corrigiu logo no inicio. Não queria dinheiro e nem comida, procurava algum pequeno trabalho para conseguir uma passagem até Ribas do Rio Pardo. Sonhava trabalhar na usina. Veio do vizinho Mato Grosso, onde a hanseníase (o nome técnico da lepra) é hiperendêmico. O Brasil registra, anualmente, em torno de 17 mil novos casos. Jão é leproso, mas não tem a doença. Seu pai tinha. Conta que “filho de leproso é leproso”. Essa é uma doença mítica, de um mal que se confundiu com o Mal, como se tivesse algo demoníaco.
Pedro, o pai de Jão.
Tudo começou em 1.964, quando Pedro, um professor de escola primária, residente em uma cidadezinha do MT que não consegui identificar, foi ao médico porque estava muito cansado. Depois de uma bateria de exames, o médico ditou a sentencia: “você tem lepra”. E continuou: “tem de abandonar teu trabalho, tua família e tua vida para sempre e internar em um leprosário. Você terá 15 dias ou a policia o levará”. O médico tinha jogado fora o jaleco branco e colocado a toga preta de juiz.
Daqui não saio nem morto.
Pedro entrou no leprosário e fechada a cancela do recinto pensou: “Daqui não saio nem morto”. Mas saiu. Seis anos depois, com os novos antibióticos que rebaixavam a carga do bacilo, a doença deixou de ser contagiosa. Regressou à vida, ainda que a cada ano tivesse de passar um mês no hospital.
Curado! Mas nem tanto.
Seguiu trabalhando e tendo filhos. Em 1.982 descobriu que se tomasse um coquetel de três fármacos durante um ano o Mal seria expulso definitivamente de seu corpo. A lepra passou a ter cura. Mas ainda era um segredo que os filhos tinham de guardar. Nem um deles podia tocar no assunto. Alguns anos depois, Pedro teve uma doença qualquer, Jão não lembra qual. Os colegas o levaram do trabalho para o médico.
A terrível descoberta.
E descobriram que Pedro tivera lepra. Entraram em pânico. Não o ouviram tentando explicar que já não era leproso. Foi obrigado a aposentar-se. Nem um só de seus colegas despediu-se dele. Leproso. Ainda que não estivesse doente. Não suportou a solidão, a exclusão da sociedade. Suicidou-se. Jão foi para Ribas do Rio Pardo, lá ele é apenas Jão. Não é leproso.
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