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10/06/2019 06:25

Quando bem e mal migraram da religião às ciências

Mário Sérgio Lorenzetto
Quando bem e mal migraram da religião às ciências

No ano de 1886 apareceu o livro de Robert Louis Stevenson denominado "O estranho caso do Doutor Jekyll e o Senhor Hyde", mais conhecido como "O Médico e o Monstro". Quando esse escritor inglês entregou sua história à gráfica, a Inglaterra passava por profundas mudanças sociais. Os tradicionais valores vitorianos ainda formavam parte de um mundo antigo que não terminava de extinguir-se. A repressão puritana seguia de vento em popa, ainda que fosse de maneira encoberta, frente a um novo liberalismo emergente. Ascendia uma nova classe social - a burguesia, que estava enriquecida pela Revolução Industrial.

Quando bem e mal migraram da religião às ciências

Stevenson antecipou o pensamento de Sigmund Freud.

O relato de Stevenson antecipou as ideias do neurologista vienense Sigmund Freud no que diz respeito à repressão e à satisfação dos desejos do indivíduo e, por extensão, dos desejos de uma sociedade onde o bem e o mal estava deixando de ser um assunto bíblico, para converter-se em pauta científica. Com o relato de Stevenson, o lado obscuro do ser humano estava mais além da mitologia. Posteriormente, seria batizado, em termos freudianos, de "teoria das pulsões", bem assim como aos três agentes de nossa personalidade que se identificam com as três categorias da psique humana: o Id, o Ego e o Superego.

Quando bem e mal migraram da religião às ciências

A sublimação para aliviar tensões.

Segundo Freud, o Id se identifica com nosso subconsciente, que é onde habitam nossos instintos mais selvagens e irracionais. O Superego representa o outro lado, o racional; enquanto o Ego se comporta como o mediador entre a categoria do Superego e do Id.
Um dos mecanismos que temos para nos defendermos é a "sublimação", um meio positivo pelo qual aliviamos tensões, desviando nossa agressividade para fins superiores, para atividades artísticas, científicas, intelectuais ou de trabalho social.

Quando bem e mal migraram da religião às ciências

Os cirurgiões são sádicos agressivos.

Essa teoria causou muito escândalo na época. Todos passaram a entender que o ofício de cirurgião era uma sublimação da agressividade sádica. Com essa ideia, muitos cirurgiões teriam sido assassinos se não tivessem conseguido virar cirurgião. Graças à sua profissão, conseguiam canalizar a energia sublimada de seu sadismo.

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Stevenson e as pulsões entre o Eros e o Thánatos.

O relato de Stevenson está diretamente relacionado aos de Freud. O conflito interior que uma pessoa mantêm é como se fosse duas pessoas opostas, habitando dentro de um mesmo corpo. É o símbolo da luta entre o bem e o mal. O eterno dualismo pelo qual a libido, a pulsão de vida ou Eros, se relaciona e retroalimenta com sua pulsão de sentido oposto, a pulsão da morte ou Thánatos. Eros e Thánatos são as forças pares que condicionam a personalidade do ser humano, assim como as estruturas sociais em que esse ser humano se desenvolva.
Com o relato de Stevenson o bem e o mal fora parar nas ciências, conectando-se com o novo mundo que emergia da revolução industrial. Um mundo que recebia sua força da máquina a vapor e que tinha seus novos mandantes, a burguesia, com tempo livre suficiente para ler... e para ser curiosa com a vida do próximo e em sua conduta.



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