24/04/2018 07:25

Depois da depilação, grito de liberdade da mulherada agora é contra o sutiã

Em 1968, protesto conhecido como "queima do sutiã" foi por direitos trabalhistas das mulheres, agora é pelo conforto mesmo

Thaís Pimenta
Sim ou não? Vale a pena levar em consideração o conforto pessoal ao escolher usar a peça e não simplesmente a imposição da sociedade. (Foto: Paul Francis)Sim ou não? Vale a pena levar em consideração o conforto pessoal ao escolher usar a peça e não simplesmente a imposição da sociedade. (Foto: Paul Francis)

Para a grande maioria das mulheres, o uso do sutiã é sinônimo de desconforto. Aperta, marca as costas e os ombros, dependendo do modelo pode machucar a pele e por aí vai.

Desde pequena, a imposição começa quando a gente aprende que vai precisar guardar os seios dentro de uma peça de pano quando eles começarem a crescer. Dependendo da menina, o dia de comprar o primeiro sutiã se torna até um ritual de passagem da infância.

Porém, quando a mulher cresce, a escolha passa a ser uma imposição. É no que acredita a atriz Thathy D Meo. Mesmo com os seios 44, já faz cinco anos que deixou a peça longe dos mamilos e diz que só usa em casos de eventos que os peitos realmente precisem de sustentação por questão de conforto.

O tema a inspirou até a criar uma crônica em que narra o momento em que o último de seus três - e únicos - sutiãs arrebenta e ela tem de ir até o centro da cidade atrás de uma nova peça. "Respirei fundo, dei um nó na alça e me atirei no campo de batalha, em pleno domingo dia de maior concorrência por metro quadrado, percorri seis lojas, encontrei, com bojo, sem bojo, pequeno nos seios, grande nas costas, reforçado, estampado, com renda, sem renda, enfrentei a conspiração 'se tem o modelo não tem a numeração, se tem a numeração não tem o modelo", diz ela no texto.

Com muito humor, e uma pitada de crítica social ao consumo, Thathy consegue narrar o trauma de uma mulher que não gosta de comprar roupas íntimas. "Minha tarde inteira de domingo se foi... Minha preguiça caminha para se transformar em um trauma...E só consigo pensar em duas coisas: Que o ato feminista A Queima dos Sutiãs, tem muito mais motivos “ocultos” a serem desvendados do que somente a inspiração do evento de protesto contra a realização do concurso de Miss America em 7 de setembro de 1968 do Women’s Liberation Movement".

Thathy e a peça que a inspirou a escrever a crônica. (Foto: Paulo Francis)Thathy e a peça que a inspirou a escrever a crônica. (Foto: Paulo Francis)

Mas feminismo tem a ver com isso? Para a atriz, tem sim. "Na verdade, eu acho que isso faz parte de um processo histórico também, nós nos livramos do espartilho. Do mesmo jeito que eu critico o sutiã eu agradeço por não estar no tempo de espartilho porque aquilo sim era algo que de fato prejudicava a saúde da mulher. Hoje se tem mulheres que usam e não gostam sei que é também por uma questão de saúde também".

Para ela, tirar o sutiã do guarda-roupa e o novo ato feminista. "É uma forma de se libertar, uma forma de dizer 'não, eu não preciso disso, eu não quero que essa lingerie só ocupe um espaço de sedução no meu corpo e hoje a gente pode fazer isso, estamos falando sobre essa questão do sutiã no sentido de nos aprisionar, e acho que toda mulher quando chega em casa quer se livrar disso, que de uma cerca forma nos prende, nos amarra. E acho que é um ato forte, da mulher, e claro acabou se tornando um ato feminista".

A crônica recebeu diversos comentários apoiando a atitude de Thathy. Dentre eles, um contesta até o mais clássico dos argumentos, o que recorre à Lei da Gravidade. "Que caiam! Até onde sei estamos todos sujeitos a ação da gravidade."

A artista Michelly Dominiq Amar, que diz ainda usar a peça, contrariada. "Procuro aposentá-lo sempre que possível. Trabalho em um setor que tem muitos homens e lido diretamente no atendimento de professores e público em geral, então ainda não vejo escapatória, tenho que usar. Mas confesso que prefiro ficar 'livre', existem roupas que até permitem esta liberdade outras nem tanto", diz.

A jornalista Gilvana Krenkel concorda. Hoje com 24 anos, ela deixou de se importar com os olhares a seus mamilos há pelo menos quatro anos e diz passar 90% de sua vida livre! "Quando eu tinha uns 12 anos, as meninas da minha escola todas começaram a usar sutiã. Ninguém tinha peitos ainda, mas já era um pré requisito usar sutiã. Eu não usava desde ali. Até pedi para minha mãe comprar um pra mim, mas quando experimentei achei uma sensação horrível. É essa peça de roupa que fica grudada em você, por mais confortável que seja o sutiã que você comprar, no final do dia ele vai estar te incomodando".

Para ela, sempre dfoi uma decisão pelo conforto, mas hoje ela consegue enxergar essa atitude como também revolucionária. "Eu percebia que estavam tentando me impor uma coisa porque na minha adolescência o sutiã que a gente usava eram aqueles com bojos, com arame, tudo pra deixar o peito da mulher mais apertado, o busto mais saliente, então pra mim hoje é uma combinação de uma conforto que eu queria e não encontrava ao usar o sutiã e também uma questão de não querer me incluir nesse padrãozinho".

Afinal, por que eles são tão polêmicos assim?Afinal, por que eles são tão polêmicos assim?

Mesmo que os mamilos não sejam tão aparentes na roupa, Gilvana diz que percebe os olhares até hoje quando não estão "protegidos" pelo sutiã. "Eu posso estar com uma roupa nem um pouco sensual, com uma camiseta fechada e um tecido grosso que não apareça quase nada e mesmo assim eu vou receber olhares, e geralmente de mulheres, infelizmente, como se fosse proibitivo sair sem sutiã".

A pergunta que fica é a básica comparação com a relação que as pessoas tê com o corpo masculino "Se os mamilos deles são aceitos, por que usar uma peça só pra esconder os femininos? Afinal, se fosse uma parte do corpo tão polêmica assim, só um dos sexos deveria ter".

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