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Artes

Arte ou sujeira? Quais os limites aceitáveis até para o grafite na cidade?

Por Elverson Cardozo | 05/04/2013 07:00
Grafite em muro da rua José Antônio, em Campo Grande. (Foto: João Garrigó)
Grafite em muro da rua José Antônio, em Campo Grande. (Foto: João Garrigó)

A pichação como problema para vários moradores não é novidade em Campo Grande, mas a maioria das discussões leva sempre ao enfoque policial. Desta vez, o Lado B abre espaço para uma discussão que vai além e tem mais a ver com a estética, o desconhecimento sobre esse tipo de manifestação e os limites aceitáveis de arte como o grafite.

O arquiteto e urbanista Ângelo Arruda é um dos que cobram o debate que envolva, de fato, as necessidades dos artistas e fuja das queixas e registros policiais. O professor é também conselheiro municipal de Cultura em Campo Grande.

No Facebook, nesta semana ele propôs a discussão: “Sujar a cidade é grafitar? “. E as respostas vieram: “Se for mal utilizado se transforma em poluição visual da mesma forma que outros meios visuais”, disse um dos seguidores.

A avaliação do arquiteto é semelhante. Para ele, tanto o grafiteiro como o pichador são artistas, apesar de um ser atacado e outro visto com melhores olhos. Mas há limites para os dois grupos.

Para quem não entende do assunto, a diferença que define as categorias é que um costuma utilizar símbolos para se expressar, quase que em uma linguagem própria, enquanto o outro recorre às cores, sombras e formas.

"Ambos, porém, devem ser respeitados, ter espaço garantido, mas também precisam saber respeitar o direito individual de propriedade. O pichador só é mal visto porque parece não se preocupar com isso”, comenta o arquiteto.

A consequência dessa postura “rebelde” colaborou, ao longo dos anos, para a marginalização do conceito e dos próprios artistas, que agora acabam sendo vistos apenas como vândalos. Com isso, a arte, que tem tudo para ser valorizada, ficou em segundo plano.

Além das fachadas, muros figuram entre os cenários preferidos dos pichadores. (Foto: Marcos Ermínio)
Além das fachadas, muros figuram entre os cenários preferidos dos pichadores. (Foto: Marcos Ermínio)
Mensagem deixada em monumento da Orla Morena. (Foto: Marcos Ermínio)
Mensagem deixada em monumento da Orla Morena. (Foto: Marcos Ermínio)

Se a lei não fosse posta à margem e se o direito individual fosse respeitado, os pichadores poderiam ser vistos, talvez, de outra forma, mas isso não significa que o trabalho poderia ser impresso em qualquer lugar. “Riscos e rabiscos” não cabem em uma edificação histórica ou modernista, mas ficam bem em um muro branco de esquina, em painéis, tapumes de obras ou outdoors disponíveis, por exemplo.

“Desde que seja aplicado em locais que não prejudicam a imagem da cidade, tudo bem. A cidade é um conjunto de imagens. No momento em que alguém vai lá e faz outra em cima daquela, vai prejudicar esse conjunto e estará vandalizando, o que é diferente”, explicou.

Já o grafite, diferente da pichação, “dá para usar em todo lugar”, defende o urbanista. Mas tudo depende de um conceito pensado pelo artista. “Ele vai se comunicar com a cidade, com a expressão que ele entender”, disse.

Se houvesse uma “regra”, seria a mesma para os pichadores: não é em todo lugar que fica bem, mas o grafiteiro, o artista, sabe disso, argumentou o conselheiro. “Ele procura na cidade lugares, espaços e situações em que possa interagir com aquilo ali. Ele precisa ser visto e se comunicar”.

Arte embeleza muro na cidade. (Foto: João Garrigó)
Arte embeleza muro na cidade. (Foto: João Garrigó)

A diferença começa por aí, pontuou. Os grafiteiros não vivem no anonimato. Costumam assinar as obras e geralmente respeitam o direito de propriedade, o que torna a relação harmoniosa.

Quanto às discussões que giram em torno do conceito estético do grafite e pichação, Ângelo é categórico: “Esse julgamento, se é bonito, feio ou horrível, escapa das mãos do gestor público. Ele não pode criar critérios para a liberdade de expressão”.

Grafiteiro há 2 anos, Muriel de Oliveira, de 25, é um dos que vive lutando contra a discriminação da arte que considera espontânea e necessária para o embelezamento da cidade. Quem ganha, afirmou, é sociedade. “Menos cimento e coisas cinza. O povo está cansado dessas mediocridades”.

Grafiteiro há 2 anos, Muriel afirma que o grafite e a pichação são formas de protesto. (Foto: Marcos Ermínio)
Grafiteiro há 2 anos, Muriel afirma que o grafite e a pichação são formas de protesto. (Foto: Marcos Ermínio)

Segundo o artista, o grafite originou da pichação, considerada uma forma de protesto e manifesto, mas as duas “categorias” conversam entre si.

“Pichação é uma forma de bater de frente com a sociedade, com o que você considera errado no sistema. O grafite é uma forma de alcançar os mesmos objetivos, mas através de uma mensagem colorida”, disse.

Sobre as reclamações geradas em torno dos pichadores, o rapaz afirma que tudo é relativo e que a sociedade precisa enxergar o outro lado. Ele mesmo já pintou, sem autorização, muros de terrenos baldios, mas se justifica dizendo que considera crime deixar o mato alto, a água parada, pondo em risco a saúde dos moradores.

Muriel participou na última quarta-feira de audiência pública na Câmara Municipal sobre o assunto, mas disse que não se sentiu representando por ninguém que lá estava, exceto pela estudante Maria Peralta, representante do movimento universitário. “Acho que nenhuma idéia nossa estava à altura do que eles esperavam”, declarou.

Falar sobre arte e estética urbana, ninguém falou.

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