Academia ou passarela? Tem gente que só quer malhar em paz
Alunos buscam conforto, liberdade e menos pressão para combinar ou variar roupas durante os treinos
Tem gente que monta look para ir à academia como quem vai sair para jantar. Roupa fitness cara, tênis impecável, tudo combinando e, de quebra, aquela reparada básica no figurino dos outros. Para alguns campo-grandenses, essa transformação do treino em desfile já ficou cafona.
Na contramão dessa academia-passarela, o jeito é voltar a malhar nos espaços de bairro pela liberdade de usar a camiseta velha, short sem combinar e tênis gasto, sem se preocupar se o look está à altura do aparelho ao lado.
Cleide Malta da Silva, de 54 anos, já frequentou uma academia de rede e não guarda saudade da experiência. Após uma pausa nos treinos, ela escolheu novamente uma academia de bairro.
“Lá era só desfile de moda, as gostosonas e os caras. O professor não dava atenção nenhuma”, lembra.
Hoje, ela diz que encontrou um ambiente completamente diferente e a roupa também deixou de ser uma preocupação. “É qualquer uma mesmo. Chego do serviço, só pego uma legging, uma camiseta e bora lá”, destaca.

Recém-saída do trabalho, Cleide explica que não tem tempo nem disposição para transformar o treino em produção. “Acabei de chegar do serviço, só troquei a roupinha e vim embora. É para treinar, não para aparecer”, pontua.
Genilson Marinho Leão também fez o caminho contrário ao que muita gente imagina. Depois de anos treinando em uma academia de bairro, ele passou cerca de um mês em uma unidade de rede.
Foi o suficiente para perceber que preferia o ambiente antigo. “Você chega lá e ninguém se olha. Cada um faz um treininho lá e vai embora”, conta.
Na academia de bairro, ele encontrou uma relação mais próxima entre os alunos. Gente que se conhece, conversa e ajuda quando aparece uma dúvida durante o exercício.
E existe a vantagem de não precisar montar um look para malhar. “Você pode vir um pouco mais de boa. Não tem toda aquela coisa de ficar sempre bonitinho”, afirma.
Ele diz que, mesmo tendo experimentado novamente uma academia “chique”, não pretende trocar de espaço.
Gilson Kuriama também já passou pelas academias de rede e afirma que percebeu uma diferença no comportamento das pessoas. Na academia de bairro, ele diz que encontrou uma espécie de clima familiar. Os frequentadores sabem os nomes uns dos outros, conversam e se cumprimentam.
“Esse clima assim de encontro familiar aqui é o diferencial dessas academias de bairro”, relata.
Para ele, até a roupa ganha outro significado. “Ninguém aqui fica reparando, não fica querendo ser melhor em termos de uniforme. A gente vem do jeito que a gente se sente mais à vontade mesmo”, afirma.
É a possibilidade de treinar sem sentir que está sendo comparado que faz diferença. Jucinei Rodrigues dos Santos, que trabalha há 24 anos com aulas, vê a mudança no comportamento dos alunos diariamente.
Segundo ele, na academia de bairro existe mais liberdade para cada pessoa escolher como quer aparecer. “Aqui o aluno se sente em casa, do jeito que ele quiser vir, ele pode vir”, destaca.

Para Jucinei, parte dessa preocupação com aparência também passa pelas redes sociais. “Hoje o pessoal está mais voltado para o Instagram. Nada contra, o pessoal vai lá, ‘treino pago’, tira uma foto. Um quer mostrar a roupa, o outro quer mostrar o corpo”, avalia.
Rafael Fidelis treina há cerca de cinco meses e também prefere o ambiente mais tranquilo. Ele percebe nas academias de rede uma preocupação maior com aparência e exposição. “Tem aquela questão dos status, aparecer um pouco na rede social”, comenta.
Na academia de bairro, ele conta que encontra um ambiente mais sossegado e sem tanta preocupação com visibilidade. A própria roupa que escolheu para treinar mostra isso. Como gosta de corrida, ele reaproveitou a camiseta de um campeonato de que participou. “É o look próprio de casa”, finaliza.
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