Anderson Guedes relembra luta mortal contra onça há 20 anos
Pescador campo-grandense falou com Lado B experiência de quase morte na Amazônia, confira

Anderson Guedes viveu o que muitos têm pavor, esteve cara a cara com uma onça-pintada e sobreviveu a um ataque dela. Neste sábado (4) ele contou ao Lado B como foi encarar, de perto, a linha tênue entre viver e virar presa e como foi ter perdido parte dos dedos e do couro cabeludo no episódio. Tudo aconteceu há 20 anos, no Amazonas. No final, o pescador levou a melhor contra o felino e conseguiu matar o animal com uma faca, mas essa história ele guarda para sempre na memória.
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Anderson está em Campo Grande para um evento especial para crianças com TEA (Transtorno do Espectro Autista) em um pesqueiro. O objetivo é fazer um dia diferente e incluir as crianças na atividade que ele tanto ama.
Ele relembra que antes do ataque veio o silêncio. Acostumado com a mata, ele estranhou quando o som simplesmente sumiu. Pássaros calaram, grilos desapareceram e os macacos começaram a se agitar. Um cheiro leve, estranho, passou pelo ar. Quando virou para trás, a cerca de 30 metros, viu a onça já em posição de ataque, baixa, tensa, olhando fixo para ele.
"Ela estava igual a um gatinho para pegar um passarinho, um rato. A pele arrepiada, o rabo torto, ela já olhando com aquela cara de ataque mesmo. No momento, quando você vê um animal daquele te olhando como se fosse a comida, você paralisa. E eu tentei me mexer para correr, para sair dali, mas não deu tempo".
Em dois saltos, o animal já estava sobre ele. A pata cravou na perna; as unhas agarraram o ombro e o puxaram para perto. O alvo era a cabeça. A mordida veio forte, atingindo o couro cabeludo e chegando a perfurar o crânio. No reflexo, Anderson enfiou a mão esquerda dentro da boca da onça, um movimento instintivo que acabou impedindo que o ataque fosse ainda mais profundo.
"Eu tava na Amazônia, um lugar extremo completamente selvagem, pescando. Uma atividade que eu faço desde criança, algo que eu gosto muito de fazer. E fui surpreendido. Eu imagino que ela talvez nunca tinha contato com gente, ela olhou e ele me viu como uma presa".
Enquanto o animal tentava finalizar, mastigava também os dedos dele. Sozinho, sem conseguir gritar, ele descreve o momento como algo fora da realidade. “Você não está lutando. Você está sendo caçado.”
A reação veio no limite. Entre dor, desespero e instinto, ele conseguiu alcançar a faca que usava na pescaria. Mesmo ferido, tentou golpear o animal. Uma vez. Duas. Na terceira, a lâmina entrou. A faca escapou, mas, na insistência, acabou cravada de vez no corpo da onça. O animal soltou. Correu e caiu. Foi aí que a dor chegou inteira.

"Você não consegue gritar, você não consegue pedir ajuda. É uma situação difícil de explicar porque ninguém passou por isso para contar. O mais curioso é que, as pessoas às vezes pensam que a onça ela fica querendo lutar com você, mas não, ela só fica tentando acertar a sua cabeça e te morder ali para para terminar logo a situação".
De pé, ensanguentado, Anderson tentou entender o próprio corpo. Achou que tinha ficado cego quando o sangue tomou os olhos. Mesmo com muitos ferimentos conseguiu chamar os amigos e sair da mata em busca de socorro.
O ataque aconteceu às margens de um rio que fica cerca de 70 quilômetros de Porto Velho (RO). Na época, ele tinha acabado de deixar Campo Grande para viver na região. Meses depois, decidiu voltar ao local. Queria encerrar o ciclo.
Lá, um morador antigo contou que encontrou a onça morta, em meio a um cenário marcado por sangue e sinais de luta. Ao retirar o couro do animal, encontrou a faca ainda cravada entre as costelas, atravessando o coração. Era a mesma faca que Anderson segura até hoje.
"Me recuperei, depois de mais ou menos uns dois meses, três meses, eu voltei lá no local. Aí o senhorzinho, tinha tirado todo o couro da onça. Quando ele tirou, ele viu a minha faca já entre as duas costelas, falou que ela pegou e cortou o coração dela. E aí ele tirou aquela faca e me devolveu. Eu guardo a faca até hoje".
Apesar da história impressionante, ele não fala com orgulho. "Matar uma onça é algo que eu realmente não me orgulho, mas ali literalmente eu não tinha o que fazer. Não tinha, outra coisa. Ela iria me matar mesmo. por Deus que eu olhei para trás. “Ela fez o que qualquer predador faria”, diz.
O que ficou foi outra coisa: uma lição. Para ele, o maior erro foi ter hesitado, mesmo com uma ferramenta nas mãos. “Às vezes, a gente tem o que precisa para enfrentar um problema, mas trava.”
Mesmo depois de tudo, ele não deixou a pescaria. Voltou para a mata, para os rios, para o lugar onde quase morreu. Não dá mesma forma, porque ninguém sai igual de um encontro desses.
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