Eles criaram os filhos de um jeito; com os netos, as regras são outras
Rotina, telas e alimentação mudaram a convivência entre avós e crianças
Quem criou os filhos com liberdade para decidir horários, brincadeiras e até aquele doce escondido hoje muitas vezes precisa pedir licença para fazer o mesmo com os netos. A mudança na forma de educar fez com que muitos avós passassem a ocupar um novo papel dentro da família: participam da criação, mas respeitam as regras estabelecidas pelos próprios filhos.
RESUMO
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No Dia dos Avós, relatos mostram como a relação entre avós e netos se transformou ao longo das gerações. Se antes os avós tinham liberdade para mimar sem regras, hoje muitos precisam respeitar limites impostos pelos pais, como alimentação controlada e uso de telas. Ainda assim, o amor permanece o mesmo, e os avós seguem encontrando novas formas de participar da criação dos netos e deixar sua marca nas memórias da infância.
Essa percepção também apareceu entre os leitores do Lado B. Em enquete publicada pelo portal, 66% disseram acreditar que os avós de hoje têm menos liberdade com os netos do que tiveram ao criar os próprios filhos.
Quem nunca ouviu que "na casa da avó pode tudo"? Durante muito tempo, era comum os avós oferecerem um doce escondido, deixarem os netos brincar até anoitecer, subir em árvore, andar de bicicleta sem tanta preocupação ou passar horas pescando e correndo pelo quintal. Hoje, essa imagem ainda existe, mas divide espaço com uma nova realidade.
Rotina organizada, alimentação controlada, limite para telas, educação positiva e mais atenção à segurança fizeram com que muitos avós precisassem se adaptar às regras estabelecidas pelos próprios filhos. Depois de criarem uma geração inteira, agora ocupam um lugar diferente: ajudam, aconselham, mas, na maioria das vezes, a palavra final é dos pais.
As histórias ouvidas pelo Lado B mostram que essa mudança nem sempre significa perda de espaço. Em algumas famílias, os avós participam ativamente da rotina dos netos. Em outras, preferem respeitar os limites impostos pelos filhos. Em comum, todos reconhecem que a forma de criar mudou.
Para a funcionária pública Solidea Leide, de 63 anos, a realidade é diferente da de muitos avós. A filha mora com ela e nunca colocou limites para que participasse da criação dos netos. Resultado: a casa virou ponto de encontro da família e também dos amigos das crianças.
Piscina, videogame, brincadeiras, almoço em grupo e um quintal sempre cheio fazem parte da rotina. Em alguns dias, chegam a aparecer meia dúzia de crianças para passar a tarde inteira por lá.
Segundo Solidea, ela e a filha enxergam a criação da mesma forma. Em vez de impedir as brincadeiras, preferem incentivar que elas aconteçam dentro de casa, onde conseguem acompanhar tudo de perto. "Na minha casa pode tudo", resume.
Para ela, é melhor ver os netos reunidos em casa, brincando, recebendo amigos e criando memórias do que vê-los procurando diversão na rua sem supervisão.
O professor João Bosco, de 69 anos, convive diariamente com os netos de 10 e 12 anos. Como a filha mora com ele, participa da rotina da família e ajuda na educação das crianças.
É ele quem leva para a escola, busca nas atividades, acompanha passeios, organiza viagens e está presente em praticamente todos os momentos importantes da infância dos dois.
Mesmo com essa proximidade, faz questão de deixar claro que existe um limite. "A palavra final é da minha filha."
Se ela determina que o chocolate será apenas no fim de semana, a regra é seguida. Se define horários para determinada atividade, todos respeitam. João diz que nunca encarou isso como perda de espaço. Pelo contrário. Para ele, educar também é caminhar junto com os pais.
Ao comparar gerações, acredita que a infância de hoje é mais confortável do que a que viveu, mas exige mais atenção.
Para a assistente social Inah Yule, de 59 anos, a maior diferença entre a infância de antigamente e a atual cabe na palma da mão. Ela cresceu em uma época em que as crianças passavam boa parte do dia na rua, conversavam mais, brincavam entre vizinhos e respeitavam horários rígidos estabelecidos pelos pais.
Hoje, ela observa que as telas substituíram boa parte desse tempo. "Os próprios netos só ficam no celular. Não conversam com a gente."
Segundo Inah, essa mudança também alterou o papel dos avós. Ela conta que procura orientar, mas reconhece que as decisões pertencem aos pais. "A palavra é da mãe", completa.
Mesmo respeitando a criação escolhida pela filha, sente falta de alguns hábitos da infância que, na opinião dela, ajudavam a construir autonomia, responsabilidade e convivência familiar.
Ela lembra que, quando era criança, havia horário para tudo: estudar, brincar, voltar para casa e dormir. Hoje, acredita que a tecnologia tornou essas fronteiras menos definidas. "A gente perdeu um pouco dessa autonomia.", finaliza.
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