ACOMPANHE-NOS    
JULHO, QUARTA  28    CAMPO GRANDE 12º

Comportamento

Paixão por k-pop fez corumbaense mudar de cidade e virar escritora

Corumbaense foi parar no Rio de Janeiro, onde se formou pesquisadora assídua da cultura "k"

Por Raul Delvizio | 23/03/2021 08:41
Dunia é corumbaense apaixonado em k-pop e que até lançou livro sobre o tema (Foto: Arquivo Pessoal)
Dunia é corumbaense apaixonado em k-pop e que até lançou livro sobre o tema (Foto: Arquivo Pessoal)

Dunia Schabib Hany é a cientista política de 26 anos que é “ligadinha” no pop oriental. Apaixonada pela cultura “k” (entretenimento de massa proveniente da Coreia do Sul), ela acabou por mudar de vida, de cidade e – mais recentemente – lançar um livro. Antes disso, porém, até formou cover de grupo cantando coreano. De Corumbá para o Brasil, ela já morou no Rio de Janeiro e atualmente vive em São Paulo onde estuda filosofia com o sonho de algum dia, no pós-pandemia, ainda visitar o outro lado do mundo.

Já ouviu falar em SS501, Girls’ Generation, B1A4 e Ladies’ Code? Pois é, eu também não – mas Dunia conhece todos e garante que vale a pena ouvir. “Os visuais coloridos e a sonoridade que remetia ao ocidental dos anos 90 mas com uma pegada asiática me conquistaram de um jeito que em pouco tempo eu já tinha decorado o nome de todos os membros do grupo Super Junior”. O ano era 2010 e ela tinha 15 anos.

“Por mais que eu seja fã de carteirinha dos mais antigos aos mais recentes – como ONF, TXT e Stray Kids, que estão entre meus preferidos – meu interesse musical não se resume ao k-pop. Gosto de Mercedes Sosa a The Strokes”, assegura.

Registro feito em lojinha de produtos da cultura "k", no Rio de Janeiro (Foto: Arquivo Pessoal)
Registro feito em lojinha de produtos da cultura "k", no Rio de Janeiro (Foto: Arquivo Pessoal)

A partir daquele ano, Dunia não parou de pesquisar a respeito do k-pop, além do idioma, história, política e sociedade sul-coreana. Ainda na Cidade Branca, onde viveu até os 16 anos, ela até conseguiu reunir um grupo de amigos e juntos fizeram uma banda cover. “Temos até vídeos no YouTube”, diz. Antes disso, a jovem era louca por rock nacional e, posteriormente, internacional. Quando descobriu o j-pop (pop japonês), estava a um passo de se encontrar de fato no k-pop.

Pauta para a explicação de Dunia: “o k-pop é a música popular surgida na Coreia do Sul nos anos 1990, quando houve as primeiras manifestações artísticas na redemocratização do país. Entre seus representantes, estão grupos de meninos e meninas que cantam, dançam e entretêm o público tal qual no ocidente”.

“Acredito que o primeiro contato em massa de muitos brasileiros com o k-pop foi em 2012, com o viral ‘Gangnam Style’ (quem se lembra?), do rapper e produtor musical PSY. Uma obra midiática tão peculiar que talvez tenha reforçado o estigma de que o que vem do oriente é exótico, esquisito e não deve ser levado a sério – uma piada com prazo de validade. Ledo engano”, ressalta.

Dunia segura pela boca foto de artistas sul-coreanos enquanto tira selfie (Foto: Arquivo Pessoal)
Dunia segura pela boca foto de artistas sul-coreanos enquanto tira selfie (Foto: Arquivo Pessoal)
Dunia é apaixonada pela "k-band" masculina sul-coreana B1A4 (Foto: Arquivo Pessoal)
Dunia é apaixonada pela "k-band" masculina sul-coreana B1A4 (Foto: Arquivo Pessoal)

É fácil entender o motivo. Nos últimos anos, várias parcerias entre artistas ocidentais e orientais aconteceram e fizeram o “k” rodar o mundo. Só Lady Gaga, por exemplo, se uniu à banda BLACKPINK em seu último lançamento, “Sour Candy”. Um híbrido pop que até na letra brinca com inglês e frases em coreano.

De lá pra cá, Dunia saiu de Corumbá, foi para a Cidade Maravilhosa onde se formou cientista política pela Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro). Antes disso, ela cursava letras (português-japonês) em outra instituição, também federal. “Sempre tive o sonho de aprender uma língua asiática, porém não me identifiquei com o curso”. Foi aí que migrou para as Ciências Sociais.

“Eu não conhecia nenhum grupo de estudos na Unirio vinculado ao k-pop ou até mesmo sobre a Coreia do Sul, então comecei a reunir análises e estudar por conta própria. Gradativamente, o cenário foi mudando. Em 2014, o Music Bank, importante festival musical sul-coreano, levou ao solo carioca artistas como SHINee, Infinite e MBLAQ. Foi incrível poder conferir a cena presencialmente, chegando ao ápice de, nos últimos anos, fenômenos como BTS também virem ao Brasil”, conta.

Registro feito na adolescência ao lado de amiga que também compartilhava da paixão pelo "k" (Foto: Arquivo Pessoal)
Registro feito na adolescência ao lado de amiga que também compartilhava da paixão pelo "k" (Foto: Arquivo Pessoal)
Registro da época em que Dunia fazia em Corumbá apresentações cover de bandas de k-pop (Foto: Arquivo Pessoal)
Registro da época em que Dunia fazia em Corumbá apresentações cover de bandas de k-pop (Foto: Arquivo Pessoal)

Após se formar no Rio, mudou-se para São Paulo e atualmente faz filosofia na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). “Um dia, ainda na Unirio, acabei por apanhar na biblioteca a ‘Dialética do Esclarecimento’ dos filósofos alemães Theodor W. Adorno e Max Horkheimer. Foi ali que descobri a possibilidade de conciliar meu interesse por arte e literatura com estudos teóricos políticos. Paralelo a isso, buscava trazer a Ásia para as minhas discussões. Por causa da obra, pude perceber que seria viável fazer minha monografia sobre a produção musical industrial sul-coreana sob a perspectiva marxista, de indústria cultural”, ressalta.

Livro – Ao participar de uma “tour” (corrente) na rede social Twitter sobre autores e seus trabalhos de conclusão de curso, Dunia viu o seu tweet viralizar. “Acabei recebendo um e-mail de uma editora que me convidou a transformar meu TCC em livro. Disseram que, mesmo sendo uma produção de graduação, tinha todo o potencial de virar uma obra publicada por ter bastante conteúdo”. Até hoje ela não sabe por quem foi indicada.

Dunia segurando cópia impressa do seu livro "K-pop – A fantástica fábrica de ídolos" (Foto: Arquivo Pessoal)
Dunia segurando cópia impressa do seu livro "K-pop – A fantástica fábrica de ídolos" (Foto: Arquivo Pessoal)

Adaptando a escrita acadêmica para uma linguagem menos formal, ela continuou na mesma temática central: a exploração de jovens na indústria do k-pop. “Foquei principalmente na ‘fabricação’ de ídolos e na transformação de vidas em produtos culturais. Ainda, as eventuais consequências do processo, como o descarte de membros que não correspondam ao padrão pré-estabelecido, acidentes de trabalho e até mesmo suicídios”, esclarece.

Sobre essa questão da idolatria tão presente na cultura “k”, Dunia acredita ser saudável alimentar a admiração por outras pessoas que são nossa referência. Porém, devoção a qualquer custo – que é o que a indústria massiva do k-pop busca atingir – tem um preço. “As pessoas que vivem exclusivamente por e para seus ídolos acabam por anular sua própria identidade e os artistas, levados ao extremo da profissão. Ser fã, assim como ser celebridade 24 horas por dia, não é emprego. Não é saudável. Os k-poppers (pessoas que seguem o k-pop) discutem muito sobre saúde mental, porque as condutas de ambas as partes são psicologicamente pejorativas”, encerra.

O livro “K-pop – A fantástica fábrica de ídolos” pode ser adquirido tanto impresso quanto on-line pelo site oficial da editora.

Curta o Lado B no Facebook e no Instagram. Tem uma pauta bacana para sugerir? Mande pelas redes sociais, e-mail: ladob@news.com.br ou no Direto das Ruas através do WhatsApp do Campo Grande News (67) 99669-9563.

Nos siga no Google Notícias
Regras de comentário