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Comportamento

Paola quer cachos de volta para se reconhecer ao se olhar no espelho

Recuperar os fios vai além de voltar ao cachos, e passa pela aceitação e autoconfiança; experiência é compartilhada no Instagram

Por Alana Portela | 24/06/2020 06:30
Paola Cassaño com os fios lisos antes de decidir encarar a transição capilar e na foto à direita, mostra como está o cabelo depois de sete meses sem química. (Foto: Arquivo pessoal)
Paola Cassaño com os fios lisos antes de decidir encarar a transição capilar e na foto à direita, mostra como está o cabelo depois de sete meses sem química. (Foto: Arquivo pessoal)

Para quem passou dez anos da vida acreditando que precisava ter um cabelo liso para se sentir bonita e feliz, a transição capilar vai muito além do que apenas recuperar os fios naturais. É a autoestima em jogo e na intenção de se reconhecer de frente para o espelho, Paola Cassaño quer os cachos de volta.

“Queria me conhecer, saber quem é a Paola hoje com cabelo cacheado, pois só tenho imagem da Paola com 14 anos assim, e essa menina mudou muito”, afirma. Aos 24 anos, a estudante de Direito compartilha nas redes sociais a relação de amor e o sentimento de inferioridade que sentia por conta dos cachos naturais.

A sugestão da reportagem foi enviada pelo Direto das Ruas, o WhatsApp do Campo Grande News. O Lado B entrou em contato com Paola que simpaticamente aceitou falar da experiência e sobre como está sendo lidar com a mudança. Para compreender melhor a história, ela volta na fase de adolescência.

Paola ainda criança toda sorridente e com o cabelinho cacheado. (Foto: Arquivo pessoal)
Paola ainda criança toda sorridente e com o cabelinho cacheado. (Foto: Arquivo pessoal)

“Comecei alisar o cabelo com 15 anos. Naquela época, não existia shampoo ou tratamento específico para cabelos cacheado. Os cachos não eram tão valorizados e como uma menina normal, não me sentia representada porque via revista, assistia novelas, filmes e não tinha representatividade do cabelo cacheado, apenas do liso”.

Na televisão por exemplo, ela relata ter visto atrizes cacheadas com os fios lisos para interpretar papéis importantes. “Juliana Paes, Taís Araújo alisavam e se alguma personagem tivesse cachos, era empregada. Querendo ou não, isso tem consequências na sociedade e eu, como menina vendo tudo, interpretava que o cabelo cacheado não era tão bonito, nem arrumado”.

Com os olhos de menina, ver aquele “padrão” de cabelo sendo imposto para representar beleza, mexeu com sua autoestima. Sem muita informação de como lidar com os fios naturais, resolveu alisar. “A vontade surgiu no ensino médio, quando passei a sair e ter uma vida social mais ativa. Na época de namorar, me sentia inferior às minhas amigas que tinham fios lisos, pois achava que os meninos se interessavam também por conta do cabelo”, diz.

A partir disso, Paola quis mudar e começou a transformação alisando a franja. Depois, alisou apenas a raiz do cabelo, posteriormente três dedos da raiz para às pontas até radicalizar. “Alisei tudo e permaneceu assim até meus 24 anos”.

Paola com os fios lisos, antes de iniciar a transição capilar. (Foto: Arquivo pessoal)
Paola com os fios lisos, antes de iniciar a transição capilar. (Foto: Arquivo pessoal)

Mas, para conseguir ter os fios lisos, ela se arriscou várias vezes. “Como não tinha dinheiro, juntava a mesada e ia no salão barato. Já fui num que era dentro de um quarto e não tinha estrutura. Tive que lidar com o couro cabeludo descascando por uma semana, enquanto as pessoas me perguntavam o quer era aquilo. Ficava morrendo de vergonha”.

Além disso, a cada três meses precisava suportar o cheiro da química para ter o liso perfeito. “O formol arde muito os olhos, dói o nariz, a boca e muitas vezes, nem conhecia o produto”.

A cada progressiva, os fios enfraqueciam. “Meu cabelo foi destruindo por conta das químicas.  Não aguentou por falta de cuidado, hidratação e as pontas afinaram. Cortava achando que ia melhorar, porém, crescia e permanecia fina”, lembra.

Já no período de transição, Paola fez uma foto para registrar um lado do cabelo liso e outro cacheado. (Foto: Arquivo pessoal)
Já no período de transição, Paola fez uma foto para registrar um lado do cabelo liso e outro cacheado. (Foto: Arquivo pessoal)

Transformação - No final do ano passado, após anos lutando contra os cachos, Paola decidiu buscar informações sobre transição capilar. “Assisti vídeos de meninas para entender o que era. Um ponto relevante é que nunca odiei meu cabelo, mas não me aceitava com ele. Depois de ver, fiquei com vontade de saber como seriam meus fios hoje, com tantos produtos e informações que temos”.

A foto à esquerda mostra o cabelo ainda com progressiva e à direita, a mudança do liso para cacheado. (Foto: Arquivo pessoal)
A foto à esquerda mostra o cabelo ainda com progressiva e à direita, a mudança do liso para cacheado. (Foto: Arquivo pessoal)

Contudo, a decisão não foi fácil. “Chorava muito, pois acreditava que seria difícil porque foram de anos de cabelo liso. Se imaginar com as duas texturas de cabelo e a parte mais difícil de lidar. No entanto, agora com sete meses de transição, não é difícil. Às vezes, é chato lidar com as duas texturas, mas fico feliz com cada cacho crescendo”, afirma.

O momento vai muito além do que recuperar os fios naturais. “Está sendo uma fase de conhecimento e superação. Falo que só quando passar por isso, a pessoa vai entender o quão grande é. Deixa de ser só os fios de cabelo e te faz crescer por dentro”, destaca.

Já se passaram sete meses desde a última química realizada por Paola, que também parou de usar chapinha e secador. “A transição consiste em parar de usar produtos químicos, mas não quer dizer que não possa usar fontes de calor. O procedimento dura até o ‘Big Chop’, que é o grande corte que retira a parte lisa. Cada pessoa tem seu tempo, pretendo cortar o meu quando tiver na altura do ombro”.

De vez em quando, para lidar com a raiz cacheada e as pontas lisas, ela usa babyliss e faz cachos, tranças e até coque. São algumas maneiras de se entender com o cabelo nesse período de “indefinição”. Paola compartilha as experiências nas redes sociais e diz estar recebendo mensagens positivas.

Paola feliz com trança no cabelo. (Foto: Arquivo pessoal)
Paola feliz com trança no cabelo. (Foto: Arquivo pessoal)

“As pessoas têm me incentivado bastante e muitas meninas estão falando comigo, tirando dúvidas, dizendo que têm vontade. Tô aprendendo e passando”, comenta. “O primeiro vídeo que postei, estava com cinco meses. A princípio, foi como uma forma de me incentivar a não desistir, pois gosto das redes sociais”.

Ela mostra o cabelo após sete meses de transição capilar. (Foto: Arquivo pessoal)
Ela mostra o cabelo após sete meses de transição capilar. (Foto: Arquivo pessoal)

A cada dia que passa, ela tem aprendido mais sobre como lidar com seus fios. “É autoconhecimento. Penso que, quando meu cabelo tiver todo cacheado, vou me sentir bem, mais livre e empoderada. Espero que me reconheça e me aceite mais. Não vai voltar mais os cachos daquela menina insegura, mas sim os cachos de uma mulher adulta, confiante e que acredita no seu potencial”.

Dez anos depois, Paola entende que é ela o seu próprio padrão de beleza. “Não preciso me comparar e para ser bonita, não precisa ter cabelo liso. São coisas importantes para meu autoconhecimento, aceitação e está sendo legal incentivar outras meninas passarem por isso porque muitas que hoje têm cabelo liso, se sentia como eu na adolescência, não representada”.

Paola está compartilhando as experiências da transição através do seu perfil do Instagram, com seu nome (clique aqui).

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