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Comportamento

Psicólogo atende pacientes e também trabalha como ator pornô

Arthur fala sobre a rotina entre os atendimentos na clínica e as produções de conteúdo adulto

Por Amanda Santos e Samuel Isidoro | 28/07/2026 07:55
Psicólogo atende pacientes e também trabalha como ator pornô
Recentemente ele esteve em Campo Grande e o Lado B bateu um papo com ele no evento (Foto: Samuel Isidoro)

Durante o dia, Arthur Cardoso atende pacientes no consultório. Em outros momentos, grava filmes pornôs, produz conteúdo adulto e trabalha como "boy interativo" em festas de sexo coletivo. Formado em Psicologia, ele decidiu parar de esconder que exerce as duas profissões.

RESUMO

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Arthur Cardoso é psicólogo e ator pornô. Formado em 2010, ele decidiu assumir publicamente as duas profissões após anos tentando mantê-las separadas. A decisão veio depois de ser ameaçado com a divulgação de vídeos íntimos no dia de sua formatura. Hoje, em São Paulo, ele atende pacientes e intercala os compromissos com gravações. Segundo ele, as carreiras se complementam: a psicologia o ajuda nas gravações e o trabalho com sexo o torna mais receptivo às questões dos pacientes.

A decisão, no entanto, não veio sem medo. Durante anos, Arthur tentou manter as carreiras separadas, principalmente enquanto morava em Campo Grande, onde acredita que o preconceito e a exposição acabaram sendo potencializados.

"No Mato Grosso do Sul tem muita fofoca sobre isso. Não havia retorno financeiro e, mesmo assim, muita gente acabava ficando sabendo", lembra.

Psicólogo atende pacientes e também trabalha como ator pornô
El.e diz que a experiência acabou mudando sua forma de enxergar a própria exposição. (Foto: Arquivo pessoal)

A relação entre pornografia e psicologia começou antes mesmo de a primeira render dinheiro. Formado no fim de 2010, Arthur guarda da cerimônia de colação uma lembrança ruim. No mesmo dia, depois de uma discussão com o atual namorado, ouviu a ameaça de que vídeos íntimos seriam divulgados caso voltasse a procurá-lo.

"Me senti muito mal, mas nunca perdi a vontade de gravar quando transava com outras pessoas", conta.

A experiência acabou mudando sua forma de enxergar a própria exposição. Se os vídeos já poderiam circular sem seu consentimento, decidiu que faria o caminho contrário: produzir o próprio conteúdo, controlar sua divulgação e ainda ganhar uma renda com isso.

"Um pensamento que me ocorreu desde o dia da minha formatura era: se já existem nudes e sextapes meus circulando por aí, então deixa eu mesmo produzir esse material e divulgar quando pedirem. Hoje monetizo essas trocas de vídeos.", explica.

Apesar disso, Arthur afirma que a pornografia nunca foi exatamente um plano de carreira. "Foi acontecendo ao passar do tempo. Até hoje não sei dizer em que momento deixou de ser hobby e virou profissão", diz.

Antes disso, a relação com a sexualidade também foi diferente da maioria dos colegas. Arthur conta que sua vida sexual começou aos 18 anos, mas já fazia o consumo da pornografia gay escondido da família e amigos.

Em 2023, sentindo-se estagnado tanto na psicologia quanto na produção de conteúdo adulto, Arthur tomou a decisão de mudar para São Paulo (SP). Como ele já atendia seus pacientes de forma online, essa escolha não afetaria o trabalho na clínica.

Na primeira semana na capital paulista, procurou pessoas para gravar. Depois disso, diz que nunca mais precisou convidar ninguém. "Desde então, todas as parcerias aconteceram porque fui procurado.", relembra.

Psicólogo atende pacientes e também trabalha como ator pornô
Arthur afirma que a pornografia nunca foi exatamente um plano de carreira. (Foto: Arquivo pessoal)

Ao mesmo tempo, a psicologia também ganhou um novo rumo. Hoje, Arthur trabalha meio período em uma empresa, atende pacientes no consultório durante as tardes e noites e intercala os compromissos com gravações das outras profissões. Segundo ele, alguns pacientes já descobriram sua atuação na pornografia e seguiram normalmente com o processo terapêutico.

"Posso sair da empresa, atender um paciente, ir para a academia e depois gravar uma cena. No outro dia posso atender três pacientes seguidos e depois gravar novamente.", explica.

O preconceito existe, mas, na maioria das vezes, Arthur diz que prefere ignorá-lo. Ainda assim, uma situação vivida em São Paulo o marcou. Ele conta que ouviu uma pessoa dizer que não indicaria seu trabalho como terapeuta por receio de alguém descobrir que ele também atuava como ator pornô. Durante muito tempo, isso influenciou suas escolhas. Até o início de 2025, fazia o possível para esconder a atuação na indústria adulta.

Apesar de amar o que faz, Arthur admite que pensou em desistir diversas vezes. Primeiro, quando percebeu que dificilmente conseguiria crescer profissionalmente permanecendo em Campo Grande. Depois, quando perdeu um emprego por causa da exposição. Mais recentemente, quase abandonou a produção de conteúdo adulto por não gostar da parte burocrática e do marketing das plataformas.

Hoje, ele diz enxergar potencial de crescimento na carreira e prefere focar no que realmente gosta de fazer.

Embora faça questão de manter limites claros entre os dois trabalhos, reconhece que um acaba influenciando o outro. Segundo ele, trabalhar diariamente com sexualidade faz com que temas ligados ao sexo apareçam de forma mais natural no consultório.

"Trabalhar com sexo me deixa menos impressionado com questões da vida sexual das pessoas, o que já é uma característica desejável para um psicólogo.", relata.

O caminho inverso também acontece. A formação em Psicologia o ajuda a conduzir melhor as gravações, com a leitura do ambiente e a prioridade de criar um clima acolhedor.

Ele brinca dizendo que talvez uma faculdade de Marketing fosse mais útil para crescer na indústria pornográfica, mas acredita que a formação também impacta o conteúdo produzido. "Eu tento fazer vídeos que enfatizem a importância do consentimento no sexo. Sei que isso alcança muito mais gente do que apenas meus atendimentos."

Por fim, ele destaca que faz questão de não misturar as duas identidades. Para isso, evita transformar a vida pessoal em assunto durante as sessões e mantém o foco nas necessidades de quem busca atendimento psicológico.

"Acho que tomo cuidado até demais. Se não tenho certeza de que algo não vai fazer bem, prefiro não inventar moda. Quero ser reconhecido pelo meu bom trabalho, se isso acontecer, já estou feliz.", finaliza.

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