Pantanal resiste ao fogo, mas a combinação de fatores reduz a biodiversidade
Pesquisa indica que a intensidade dos incêndios e o nível de inundação definem o impacto sobre as espécies

Pesquisa recém-publicada na plataforma científica Springer Nature Link indica que o Pantanal tem capacidade de se recuperar após incêndios, mas essa resiliência tem limite e pode ser comprometida quando fogo, inundação e pressão do gado atuam juntos.
RESUMO
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O estudo, desenvolvido por pesquisadores do PELD (Programa de Pesquisa Ecológica de Longo Prazo), foi disponibilizado na última semana na revista Wetlands Ecology and Management, da Springer Nature, uma das principais bases internacionais de produção científica. A plataforma reúne milhões de artigos e livros acadêmicos e, no Brasil, pode ser acessada por meio do Portal Capes e redes institucionais.
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Com base em experimentos de longo prazo no bioma, os cientistas analisaram como diferentes tipos de queimadas, níveis de alagamento e a presença de herbivoria moldam a vegetação do Pantanal. A conclusão é direta: o sistema suporta perturbações, mas não de qualquer forma.
“O Pantanal é resiliente, mas não é indestrutível”, resume o artigo ao mostrar que incêndios mais intensos, especialmente em áreas mais alagáveis, reduzem a diversidade de espécies e tornam o ambiente mais homogêneo.
O trabalho é assinado por pesquisadores ligados à UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), ao Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e a outras instituições, como Alexandre de Matos Martins Pereira, Francielli Bao, Evaldo Benedito de Souza, Arnildo Pott, Valli Joana Pott e Geraldo Alves Damasceno-Júnior.
Um dos principais pontos do estudo desmonta a visão simplista de que todo fogo é necessariamente prejudicial. Segundo os pesquisadores, queimadas de baixa intensidade, feitas no início ou no fim da estação seca, podem até favorecer a biodiversidade em áreas menos inundadas.
Por outro lado, o chamado “fogo modal”, mais intenso e comum no auge da seca, tem efeito contrário e reduz tanto a diversidade de espécies quanto a variedade de funções ecológicas. Na prática, isso significa que o impacto do fogo depende mais de como ele ocorre do que da sua simples presença.
Água e rebanho - O regime de cheias aparece como um fator decisivo. Áreas mais alagadas já impõem um filtro natural para a sobrevivência das espécies. Quando esse cenário se combina com incêndios intensos, o efeito é potencializado.
O estudo mostra que a interação entre fogo e inundação pode levar à perda de diversidade e à simplificação da vegetação, principalmente nas regiões que permanecem alagadas por mais tempo. Ou seja, discutir incêndio no Pantanal sem considerar o ciclo das águas é análise incompleta.
Mais um ponto sensível é a herbivoria, associada principalmente ao pastejo de gado. O estudo indica que, quando combinada com o fogo, ela pode intensificar a perda de espécies. Em alguns cenários, o efeito conjunto de fogo e herbivoria reduz a diversidade de forma semelhante a incêndios de alta intensidade.
Os pesquisadores destacam que o Pantanal mantém sua riqueza biológica justamente pela variação de condições no espaço e no tempo, conceito conhecido como “pirodiversidade”. Ambientes com queimadas em diferentes momentos tendem a ser mais diversos do que áreas afetadas por eventos extremos concentrados.
Essa heterogeneidade é essencial para sustentar os serviços ecossistêmicos do bioma.
Apesar dos riscos, o estudo não descarta o uso do fogo como ferramenta. Pelo contrário, aponta que queimadas controladas, bem planejadas e ajustadas ao regime de cheias podem ajudar a manter o equilíbrio do sistema.
Combinações erradas de intensidade do fogo, período do ano e pressão de pastejo podem levar à perda de biodiversidade, especialmente em áreas mais vulneráveis. A pesquisa reforça que estratégias de manejo precisam considerar simultaneamente clima, hidrologia e uso econômico do território.
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