Senado destitui presidente do Paraguai após escândalo bancário
Santiago Peña perde o cargo por unanimidade em meio à crise do Ueno Bank; mudança atinge parceiro estratégico
O presidente do Paraguai, Santiago Peña, foi destituído do cargo nesta sexta-feira (6), após o Senado aprovar por unanimidade seu impeachment, em meio ao escândalo financeiro envolvendo o Ueno Bank. A decisão encerra a crise política que se agravou nos últimos dias e abre caminho para a posse do vice-presidente Pedro Alliana, que assume o comando do país vizinho, que mantém fortes relações comerciais e estratégicas com Mato Grosso do Sul.
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A destituição recebeu 44 votos favoráveis e nenhum contrário. Peña não compareceu à sessão, mas foi representado por advogados, que contestaram o procedimento e ameaçaram recorrer à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. O julgamento ocorreu um dia após o presidente anunciar sua renúncia, que ainda não havia sido formalmente aceita pelo Congresso.
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Peña decidiu deixar a Presidência diante da pressão parlamentar e das manifestações provocadas pelo colapso do Ueno Bank, instituição financeira que atendia cerca de 3 milhões de clientes. O anúncio, no entanto, não encerrou a disputa política. Isso porque parlamentares preferiram levar adiante o processo de impeachment, já que a renúncia daria a Peña uma espécie de foro privilegiado, com garantias de um "senador vitalício".
Antes da votação, Peña voltou a se manifestar nas redes sociais. Afirmou que havia apresentado sua saída para evitar mais danos ao país e contribuir para a recuperação da estabilidade política. Também pediu união para reconstruir a confiança nas instituições paraguaias. Contudo, o esforço foi em vão.
Escândalo bancário - A crise começou a se intensificar após a intervenção do Banco Central do Paraguai no Ueno Bank, na segunda-feira (2), por problemas relacionados à capacidade financeira da instituição. O banco administrava aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo valores vinculados à previdência.
As suspeitas envolvendo Peña surgiram por causa de suas antigas relações empresariais com o grupo ligado ao banco. O agora ex-presidente foi acionista da Ueno Holding, da qual se desligou em março de 2025. Parlamentares da oposição apontaram possíveis conflitos de interesses, falhas na fiscalização e irregularidades em operações financeiras.
Entre os negócios questionados estão empréstimos de aproximadamente US$ 146 milhões concedidos a empresas relacionadas ao grupo controlador da instituição. Técnicos do Banco Central identificaram indícios de operações em condições irregulares e acima dos limites previstos para empresas relacionadas.
A crise também levou à investigação de dirigentes bancários, à prisão de executivos e a protestos em Assunção e outras cidades. Milhares de clientes enfrentaram dificuldades para acessar suas economias após a intervenção.
A defesa de Peña nega que sua antiga participação empresarial comprove irregularidades. Os advogados sustentaram que ele não era acionista diretamente do banco, que declarou sua participação na holding e que não houve demonstração de benefício indevido decorrente de decisões presidenciais.
Relação com Mato Grosso do Sul - A mudança no comando do Paraguai interessa diretamente a Mato Grosso do Sul, sobretudo pelos projetos de integração econômica e logística com o país vizinho.
Peña esteve em Campo Grande em 22 de março deste ano, durante a abertura da COP15, conferência internacional dedicada à conservação das espécies migratórias. Na ocasião, reuniu-se com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e participou de encontro com empresários na Fiems (Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul), onde discutiu investimentos e oportunidades comerciais.
O Paraguai é uma das principais peças da Rota Bioceânica, corredor rodoviário projetado para ligar Mato Grosso do Sul aos portos do Chile, passando também pela Argentina. Entre as obras estratégicas está a ponte internacional entre Porto Murtinho e Carmelo Peralta.
A crise financeira também desperta atenção na fronteira de Ponta Porã com Pedro Juan Caballero, marcada pela circulação de consumidores, trabalhadores e empresas dos dois países. Ainda não há levantamento divulgado sobre quantos brasileiros da região foram diretamente afetados pelos problemas do Ueno Bank.
Com a saída de Peña, caberá ao novo governo administrar as consequências do escândalo bancário e dar continuidade às relações diplomáticas e aos projetos de integração regional. Até o momento, não há indicação de suspensão dos compromissos relacionados à Rota Bioceânica.
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