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Conforme a carroça anda, as abóboras vão pro lugar

Por Cristiane Lang (*) | 30/04/2026 13:00

Conforme a carroça anda, as abóboras vão se ajeitando — não porque alguém desceu no meio do caminho para organizá-las uma a uma, mas porque o movimento, por si só, faz o que precisa ser feito. Há uma sabedoria silenciosa nisso, uma daquelas verdades simples que a gente insiste em complicar: a vida se ajusta enquanto segue. Mas nós, apressados por natureza e ansiosos por hábito, queremos parar a carroça a todo instante, queremos descer, conferir, alinhar, controlar, prever, queremos que tudo esteja no lugar antes mesmo da estrada começar, e é aí que nos perdemos. Porque há coisas que só o tempo organiza.

A ansiedade nasce dessa ilusão de controle, dessa urgência em ver tudo resolvido, dessa incapacidade de confiar no processo. É como querer colher antes de plantar, ou exigir flores de um terreno que ainda está sendo preparado. A ansiedade não acelera o tempo, ela apenas torna o caminho mais pesado, mais tenso, mais sofrido. Enquanto a vida pede ritmo, a ansiedade impõe pressa, e pressa quase sempre desorganiza mais do que organiza.

A verdade é que quase nada na vida se resolve de forma imediata. Relações levam tempo para se firmar ou se desfazer por completo, sonhos exigem construção, tentativa, erro e recomeço, e curar feridas — emocionais ou não — não é um evento, é um processo. E processos não obedecem ao nosso relógio interno, por mais insistentes que sejamos. Existe um tempo invisível acontecendo por trás de tudo, um tempo de maturação, de entendimento, de mudança que acontece por dentro antes de aparecer por fora. É o tempo em que as coisas parecem paradas, mas estão, na verdade, se transformando, e talvez esse seja o tempo mais difícil de respeitar, porque ele não oferece garantias visíveis, apenas a necessidade de confiar.

Ansiedade é querer provas antes da hora, é não suportar o intervalo entre o agora e o depois, é olhar para o caminho em vez de caminhar, exigir que ele já esteja concluído. E nisso, a gente se desgasta, se frustra, se angustia — não porque a vida esteja errada, mas porque estamos tentando viver no tempo errado. A carroça não precisa da nossa interferência constante, ela precisa seguir, e seguir implica aceitar que nem tudo vai estar perfeitamente organizado o tempo todo. Algumas coisas vão sair do lugar antes de se acomodarem, algumas decisões vão parecer confusas antes de fazerem sentido, algumas perdas vão doer antes de ensinarem, e tudo isso faz parte do movimento natural de ajuste da vida.

O problema não está no tempo das coisas, está na nossa resistência a ele. Vivemos como se esperar fosse um desperdício, como se o intervalo fosse um erro, como se o processo fosse apenas um obstáculo entre nós e o resultado, mas, na verdade, é no processo que a vida acontece, é nele que aprendemos, amadurecemos, nos transformamos. O resultado é só um instante, o caminho é onde tudo se constrói.

Talvez seja preciso aprender a respirar dentro do tempo das coisas, a entender que nem tudo precisa de solução imediata, que algumas respostas chegam com atraso, mas chegam mais completas, que certos encaixes só acontecem depois de muitos desalinhamentos, e que está tudo bem. A carroça segue, mesmo quando duvidamos dela, e, pouco a pouco, sem alarde e sem pressa, as abóboras encontram seu lugar. Talvez a paz esteja justamente aí, em confiar que a vida sabe se organizar, desde que a gente permita que ela ande.

(*) Cristiane Lang, psicóloga especialista em oncologia 

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.