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Campo Grande, Sábado, 22 de Setembro de 2018

11/03/2018 11:36

Pesquisadora da USP explica interesse do PCC por Mato Grosso do Sul

Principal rota para o tráfico, o Estado foi "controlado" pela facção em 2000, quando integrantes da organização criminosa foram transferidos para a Máxima de Campo Grande

Geisy Garnes
PCC é maioria na Penitenciária Máxima de Campo Grande (Foto: Arquivo)PCC é maioria na Penitenciária Máxima de Campo Grande (Foto: Arquivo)

Fronteira seca com o Paraguai, Mato Grosso do Sul se transformou aos longos dos anos na porta de entrada para o tráfico de drogas e armas para o Brasil. Foi a “localização privilegiada”, e a facilidade em passar pela fronteira, os principais atrativos para que o PCC (Primeiro Comando da Capital) se estabelecesse no Estado. Mas, o fator determinante para que o grupo criminoso se fixasse aqui, a falta de concorrência, fundamental para a hegemonia da facção.

É assim que a socióloga Camila Nunes, pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo e professora da Universidade Federal do ABC, explica o poder estratégico de Mato Grosso do Sul para a principal organização criminosa do País.

“A expansão para Paraná e Mato Grosso do Sul, fronteiras com Paraguai e Bolívia, se dá a partir do início dos anos 2000 com a política estadual de presos que promoviam rebeliões. Os líderes do PCC ficaram um tempo nesses estados importantes para a rota do tráfico, onde propagaram suas ideias, o que favoreceu que ficassem numa posição privilegiada no mercado da droga”.

Em entrevista ao jornal O Globo, a socióloga, que estuda a rotina dos presídios, o crime organizado e o tráfico de drogas nas fronteiras desde 2003, defende que para o PCC não tem interesse em controlar o crime em estados que possuem fragmentação de facções, como por exemplo o Rio de Janeiro.

“Como o PCC tem uma visão estratégica, os líderes acreditam que não vale entrar nessa guerra e arriscar perder arma, dinheiro e pessoas. O interesse é a venda no atacado”, explicou. Em Mato Grosso do Sul, a hegemonia da facção paulista é quase absoluta e aqueles que se opõem, ou se envolve com outra facção, são brutalmente assassinados.

Durante 2017 os conhecidos “Tribunais do Crime” mataram seis pessoas em Campo Grande. Esse ano, um jovem de 27 anos foi executado nos mesmos moldes, consequência da disputa entre PCC e CV (Comando Vermelho) na Capital, que se intensificou em 2016. Foi justamente o envolvimento com a facção rival, segundo a polícia, a “motivação” de todos os homicídios.

O controle do grupo fica ainda mais evidente dentro do maior presídio do Estado, o Estabelecimento Penal Jair Ferreira de Carvalho, a Máxima de Campo Grande. Em entrevista ao Campo Grande News, no fim do ano passado, o delegado-geral da Polícia Civil, Marcelo Vargas Lopes, explicou que o domínio do presídio é tão forte que presos de outras facções não podem ser transferidos para a Capital.

Segundo ele, já foram identificadas três facções criminosas atuantes em Mato Grosso do Sul: Comando Vermelho, Família do Norte e PCC. “Temos presos da Família do Norte em Coxim, Sonora e Rio Verde, que não podem ser transferidos para Campo Grande por conta do risco de assassinato”, afirmou Vargas.

Ao jornal O Globo, Nunes explicou que foi nos presídios que o PCC ganhou força e se expandiu. “O PCC precisa ser entendido a partir de dois pontos-chaves: a articulação do tráfico de drogas de modo empresarial e o discurso ideológico de que a população carcerária é oprimida, o que permite expansão nos presídios. É a partir desse ponto de vista ideológico, reivindicando a ética do “lado certo da vida errada”, que a facção busca legitimar suas ações, incluindo mortes”, detalhou.



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