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Quando a liberdade feminina incomoda

Por Lia Rodrigues Alcaraz Spengler (*) | 28/10/2026 14:10

Há algo de profundamente incômodo na mulher que escolhe por si mesma.

Não necessariamente porque sua escolha seja inadequada, excessiva ou ameaçadora em si, mas porque uma mulher que escolhe rompe com uma posição historicamente atribuída a ela: a de ser escolhida, autorizada, protegida, conduzida ou validada pelo outro. Quando a mulher passa a ocupar o lugar de quem deseja, decide, trabalha, ganha dinheiro, recusa, termina, permanece, fala, silencia, cria os filhos ou decide não tê-los, ela desloca uma ordem que durante muito tempo pareceu natural.

A questão não é simplesmente a existência de homens que defendem valores tradicionais. O problema começa quando a preservação de determinado modelo de masculinidade depende da diminuição da liberdade feminina. Quando, para que um homem se sinta autorizado a ocupar seu lugar, torna-se necessário que uma mulher seja colocada em um lugar menor.

Do ponto de vista psicanalítico, talvez seja possível pensar que não se trata apenas de uma disputa social, mas também de uma questão relativa ao desejo, à falta e àquilo que o outro representa para o sujeito.

Freud nos ensina que o sujeito não é tão senhor de si quanto imagina. Há algo que escapa à consciência, algo que retorna, que insiste e que pode aparecer justamente onde acreditamos estar defendendo apenas valores, princípios ou costumes. O que se apresenta como uma defesa da “ordem” pode, em determinadas situações, carregar também angústias diante da perda de um lugar conhecido.

A mulher independente pode, então, representar algo que desorganiza.

Ela não precisa necessariamente do homem para existir. E essa possibilidade pode colocar em questão uma fantasia antiga: a de que a masculinidade se confirma pela dependência feminina.

Lacan radicaliza essa discussão ao mostrar que o sujeito se constitui na relação com o Outro e que o desejo não se reduz à satisfação de necessidades. O desejo está atravessado pela falta. Por isso, nenhuma posição social consegue oferecer uma completude definitiva. Nem a masculinidade, nem a feminilidade, nem o casamento, nem o poder, nem a autoridade conseguem eliminar estruturalmente a falta que constitui o sujeito.

Talvez seja justamente por isso que determinadas formas de masculinidade se tornam tão rígidas quando confrontadas com mulheres que não aceitam mais ocupar posições previamente determinadas.

Se a mulher deixa de ser objeto de confirmação da identidade masculina, o homem é convocado a sustentar sua própria posição sem precisar diminuir a posição dela.

E aqui existe uma distinção importante: fortalecer a mulher não significa enfraquecer o homem.

A existência de mulheres livres não exige o desaparecimento da masculinidade. Ao contrário. Há espaço para diferentes formas de ser homem, assim como há espaço para diferentes formas de ser mulher. Uma masculinidade não precisa ser construída pela dominação, pela autoridade absoluta ou pelo controle do corpo e das escolhas femininas.

O homem pode exercer sua masculinidade sem precisar transformar a mulher em subalterna.

Pode cuidar sem controlar, pode proteger sem tutelar, pode desejar sem possuir, pode exercer autoridade sem humilhar, pode ser forte sem exigir fragilidade do outro.Isso também significa reconhecer que masculinidade não é sinônimo de poder sobre alguém.

Na perspectiva lacaniana, não existe uma posição subjetiva capaz de preencher completamente a falta. O sujeito está permanentemente às voltas com aquilo que não possui e que não pode possuir integralmente. Talvez uma das tarefas contemporâneas seja justamente suportar essa falta sem transformá-la em violência, controle ou tentativa de reduzir o outro.

Quando uma mulher conquista autonomia, ela não está necessariamente retirando algo de um homem. Ela está ocupando um lugar que também lhe pertence: o lugar de sujeito do próprio desejo.

(*) Lia Rodrigues Alcaraz Spengler é formada em psicologia (2011),  Especialista em orientação Analítica (2015), Especialista em neuropsicologia (2026) e está em Formação para  Psicanalista. Trabalha como psicóloga clínica em consultório particular.