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Economia

Com protagonismo indígena, hortas superam R$ 1 milhão em aldeias

Iniciativa une saberes tradicionais e agroecologia, fortalece renda e já alcança 22 comunidades

Por Inara Silva | 06/05/2026 13:15
Com protagonismo indígena, hortas superam R$ 1 milhão em aldeias
Horticulturos trabalham a terra na Aldeia Mãe Terra, em Miranda. (Foto: Divulgação)

Criado para garantir a segurança alimentar das famílias indígenas, o projeto Horta da Aldeia, desenvolvido pela UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), ultrapassou a marca de R$ 1 milhão em vendas acumuladas de 2018 até o fim de 2025.

RESUMO

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O projeto Horta da Aldeia, desenvolvido pela UFMS desde 2018, superou R$ 1 milhão em vendas e atende 22 comunidades indígenas em 8 municípios de Mato Grosso do Sul. A iniciativa beneficia cerca de 20 mil pessoas, promove segurança alimentar e geração de renda por meio de hortas agroecológicas, programas governamentais e vendas diretas, além de reservar 10% da produção para um fundo solidário comunitário.

A iniciativa tornou-se uma das principais iniciativas de agricultura sustentável voltadas a comunidades indígenas e populações em situação de vulnerabilidade no Estado.

“Temos uma base de controle construída a partir das fichas de registro de vendas utilizadas pelas famílias. Isso permite organizar a produção no dia a dia e também sistematizar os resultados com segurança”, explica o gestor do projeto, professor André Dioney Fonseca, ao ressaltar que o crescimento é acompanhado de forma sistemática pelas próprias famílias.

.Embora a geração de renda não tenha sido o foco inicial, o professor explica que ela se tornou um indicador relevante do impacto do projeto. “O objetivo sempre foi garantir segurança alimentar. A comercialização surge como um desdobramento desse processo”, afirma.

Produção estruturada - Atualmente, o projeto atende 22 comunidades em 8 municípios de Mato Grosso do Sul, incluindo aldeias, escolas, associações e espaços comunitários. Um dos principais exemplos está na Aldeia 10 de Maio, em Sidrolândia, reunindo o maior número de famílias já organizadas.

Na comunidade, 35 famílias participam dos programas PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar), movimentando, em média, R$ 15 mil por ano cada. Somados, os valores já ultrapassam com folga a projeção inicial, sem considerar outras formas de comercialização, como vendas diretas e feiras.

O gestor esclarece que, nas demais aldeias, esse processo também avança, ainda que de forma gradual, à medida que a produção se estrutura e a organização interna se fortalece. Atualmente, também fazem parte do PAA e do PNAE 4 famílias na Aldeia Lagoinha e 1 na Aldeia Ipegue, em Aquidauana; 2 na Aldeia Nova Buriti; 6 na Aldeia dos André, em Dois Irmãos do Buriti; e 2 na Aldeia Paraíso dos Guerreiros, em Nioaque.

O professor afirma que o acesso aos programas exige o cumprimento de uma série de requisitos formais e envolve uma burocracia significativa, um desafio adicional para muitas comunidades indígenas. Nesse contexto, o projeto atua como facilitador, apoiando na organização de documentos, na compreensão das regras e na adequação da produção aos critérios exigidos.

A organização produtiva na Aldeia 10 de Maio também abriu portas para novos investimentos. “Hoje eles já conseguiram veículos, tratores e caminhões. O projeto cria condições para que as comunidades avancem em outras frentes, com mais autonomia”, destaca Dioney.

Esse impacto aparece também nos depoimentos reunidos pelos pesquisadores ao longo do desenvolvimento do projeto. Na Aldeia 10 de Maio, o horticultor e liderança indígena Adão Alves Custódio comemora a transformação vivida pela comunidade.

Com protagonismo indígena, hortas superam R$ 1 milhão em aldeias
Hortaliças produzidas nas aldeias (Foto: Divulgação)

“Antes a gente pedia as coisas, mas não conseguia. Depois da produção das hortas, as portas se abriram. Hoje temos uma patrulha mecanizada mais completa aqui do território Buriti, com todos os equipamentos, desde rotoencanteirador, calcareadeira, grade niveladora, carretinha, subsolador, roçadeira, caminhão, tudo, uma patrulha completa”, afirma.

A estimativa é que 20 mil pessoas foram impactadas pelo projeto em Mato Grosso do Sul, considerando efeitos diretos e indiretos. “Existe um núcleo de famílias diretamente envolvidas, mas há uma rede mais ampla que se forma. Muitas pessoas passam a plantar, consumir ou se envolver a partir do que observam nas comunidades”, explica o coordenador.

Sistema produtivo integrado - Embora as hortas sejam o eixo central, o projeto evoluiu para um modelo mais amplo de produção. Os roçados tradicionais, especialmente entre o povo Terena, passaram a ser incorporados como complemento, garantindo diversidade e continuidade ao longo do ano. “Não é algo que o projeto introduz; é algo que já existe e que tem um peso muito grande.”

O professor afirma que o roçado garante a continuidade da produção e também da renda das famílias.

“Nos períodos mais quentes, quando a horta reduz a produção, o roçado cumpre um papel fundamental”, explica o gestor. Além disso, o cultivo de frutas como banana, mamão, goiaba, maracujá e acerola vem ganhando espaço, ampliando tanto o consumo interno quanto as possibilidades de venda.

Novos Mercados - A comercialização também se diversificou, pois, além de canais tradicionais como programas governamentais, supermercados e CEASA (Central de Abastecimento de Mato Grosso do Sul), o projeto impulsionou uma rede de vendas diretas. Atualmente, os indígenas fazem a venda dentro das próprias aldeias, fornecem para pequenos mercados de bairro, atuam em cooperativas e fazem entrega direta aos consumidores, com uso de bicicletas, motos e veículos.

“O que vemos é uma microeconomia bastante ativa. Isso fortalece o circuito local e aproxima produtor e consumidor”, diz Dioney.

Com protagonismo indígena, hortas superam R$ 1 milhão em aldeias
Hortaliças plantadas em aldeia de MS (Foto: Divulgação)

Fundo solidário - Enquanto parte da produção é destinada à venda e geração de renda, outra parcela é consumida pelas próprias famílias no dia a dia. Além disso, cerca de 10% dos alimentos são reservados para um fundo solidário, que viabiliza a distribuição gratuita a pessoas e instituições escolhidas pela própria comunidade participante do projeto.

O coordenador explica que em algumas comunidades, por exemplo, os alimentos são destinados às famílias com pessoas com diabetes. “Em outras, ele ajuda a reforçar a segurança alimentar e até a introduzir, de forma mais consistente, o consumo de verduras e legumes. Também há casos em que essa produção é destinada a creches, instituições de apoio e outras iniciativas comunitárias”. Conforme o coordenador, “o que importa é a função social que esse mecanismo vem cumprindo”.

Reflexos na SaúdeEmbora ainda não exista um estudo científico consolidado sobre a redução de doenças como diabetes e hipertensão, há indícios de melhora na alimentação das comunidades. Com a produção local, aumentou o acesso a alimentos frescos e diminuiu a dependência de ultraprocessados, como confirma a liderança indígena Cleonice Guerreiro de Silva, da Aldeia Paraíso dos Guerreiros, em Nioaque. “Tivemos ganhos com uma alimentação muito mais saudável. A horta melhora a saúde física e mental e ainda gera renda para as famílias”, afirma.

O horticultor da Aldeia Barreirinho, em Dois Irmãos do Buriti, Wildyhon Cleiton Cotócio Miranda, complementa que houve mudanças de hábitos alimentares. Agora até em festa de aniversário tem verdura", complementa.

Dioney afirma que há evidências observacionais importantes e que o próximo passo é estruturar pesquisas com metodologia adequada para medir esses impactos.

Futuro - Conforme o gestor, o projeto ainda enfrenta limitações, principalmente relacionadas à disponibilidade de recursos para atender novas comunidades. Mesmo assim, a iniciativa se consolida como um modelo de desenvolvimento baseado na agroecologia, no respeito aos saberes tradicionais e na autonomia das populações indígenas. “Não se trata de impor modelos prontos. É um processo de adaptação e construção coletiva, respeitando a realidade e a cultura de cada comunidade”, conclui.

“O projeto deu visibilidade para nossa comunidade, hoje já somos conhecidos como produtores de verduras de qualidade, sem veneno e saudável”, comemora Cleonice Guerreiro.

O projeto - O Projeto Horta da Aldeia é uma iniciativa que, desde 2018, apoia comunidades indígenas na criação de hortas agroecológicas para garantir alimentação saudável e gerar renda, combinando saberes tradicionais com técnicas sustentáveis. O projeto atualmente é financiado por emendas parlamentares e pelo MDA (Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar).

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