Falta de trabalhadores é gargalo para novos investimentos em Mato Grosso do Sul
Projetos bilionários ampliam disputa por profissionais e expõem limite da mão de obra disponível no Estado

Os programas de capacitação de mão de obra adotados em Mato Grosso do Sul têm sido insuficientes para atender à demanda do setor produtivo local ou fazer frente aos desafios diante do fim gradativo dos incentivos fiscais. Com demanda aquecida, o Vale da Celulose, por exemplo, é marcado pela disputa por profissionais para os projetos da Arauco, Bracell e para a retomada da UFN3 (Unidade de Fertilizantes Nitrogenados 3) da Petrobras.
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
Mato Grosso do Sul enfrenta falta de trabalhadores para atender à expansão econômica, especialmente no Vale da Celulose, onde projetos da Arauco, Bracell e UFN3 disputam profissionais. O Estado precisa capacitar 207 mil pessoas até 2027, entre novos trabalhadores e profissionais em requalificação. Especialistas apontam que a baixa população agrava o problema e defendem ampliar a formação profissional e os investimentos em logística para sustentar a competitividade e atrair novos negócios.
Especialistas alertam que ampliar os investimentos na infraestrutura logística para o escoamento da produção local é outro desafio para o Estado no próximo mandato de Eduardo Riedel (PSDB).
- Leia Também
- Reforma tributária e investimentos sem renúncia fiscal desafiam governo Riedel 2
- Inocência se torna maior geradora de empregos da indústria em MS
O pesquisador Eduardo Luís Casarotto, professor de Administração da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados), avalia que o governo terá de fortalecer os órgãos de formação profissional para ampliar a capacitação e atender à demanda do setor produtivo.
“O desafio, porém, vai além da qualificação, porque o Estado não tem trabalhadores em quantidade suficiente para acompanhar o ritmo dos novos investimentos. Ou seja, o problema não é somente a capacitação. Somos um Estado pequeno, populacionalmente. Então, falta gente.”
Ele destaca ainda a importância de ampliar os recursos e programas para incentivar a permanência de trabalhadores estrangeiros ou de outras regiões do País no Estado.
“Temos muita mão de obra de fora, e isso também causa um fluxo que impacta vários pontos da organização da sociedade, especialmente em regiões que às vezes não estão preparadas para isso”, acrescenta.
O especialista da UFGD reconhece que o problema de mão de obra qualificada não é isolado de Mato Grosso do Sul, já que a carência ocorre também em várias regiões do Brasil. Nesse caso, ele lembrou que o gargalo de mão de obra iniciado na área do transporte vem se estendendo para outros setores em meio ao dinamismo econômico.
“Se tivéssemos perto de 20 mil caminhoneiros disponíveis, todos eles estariam empregados”, avalia.
Busca por mão de obra - Atualmente, a escassez de profissionais “é a dor de todo empresário”, reforça a Fiems (Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso do Sul). A explicação da federação é de que a economia local atravessa um ciclo de pleno emprego e, por isso, o número de trabalhadores vem sendo insuficiente para atender à demanda.
O caso mais conhecido foi a chegada da Suzano a Ribas do Rio Pardo, um município de pouco mais de 20 mil habitantes. O início das operações industriais da fábrica, em julho de 2024, gerou transtornos para os dirigentes públicos locais, principalmente nas áreas de habitação, saúde, infraestrutura e educação.
O Estado precisa capacitar 207 mil profissionais até 2027 para atender à demanda da indústria de Mato Grosso do Sul, segundo relatório estadual do Mapa do Trabalho Industrial 2025-2027, elaborado pelo Observatório Nacional da Indústria da CNI (Confederação Nacional da Indústria) em parceria com o Senai. O número contempla, por exemplo, a necessidade de formação de 31 mil novos profissionais, além da requalificação de 176 mil que já estão no mercado.
Aquecimento no Vale da Celulose - O Vale da Celulose é uma das regiões que apresentam maior demanda por mão de obra qualificada. Sem dimensionar o tamanho da escassez na região, o gestor da Casa do Trabalhador de Três Lagoas, Sidney Cudeiro de Abreu, reforçou que o déficit continua e cresce com a concentração de grandes obras e novos investimentos no Estado.
Na cidade, por exemplo, empreendimentos simultâneos dos setores industriais, da construção civil, das atividades agrícolas e das indústrias têxtil e de embalagens pressionam a demanda.
Ele concorda que a baixa densidade populacional do Estado limita a oferta de trabalhadores para atender a esse ciclo de investimentos.
“A mão de obra está escassa. Mato Grosso do Sul é um Estado grande, mas não tem uma densidade populacional tão alta. Então, quando temos grandes obras acontecendo ao mesmo tempo, isso acaba causando esse problema”, disse.
Entre os megaprojetos em construção estão as fábricas da Arauco, em Inocência, e da Bracell, em Bataguassu. As informações são de que os dois projetos bilionários enfrentam disputa acirrada por trabalhadores tanto para a operação de máquinas da indústria florestal quanto para as obras de construção civil.
A Arauco informou à reportagem que tem valorizado a mão de obra local e regional ao longo da implementação do Projeto Sucuriú, em Inocência. Sem mencionar números, a empresa disse, porém, que a construção mobiliza profissionais de diferentes regiões do Brasil, conforme as necessidades e especialidades exigidas em cada etapa, considerando a dimensão e a complexidade do empreendimento, que representa um investimento de US$ 4,6 bilhões, cerca de R$ 25 bilhões.
Com 81% das obras concluídas, acima das estimativas programadas, o projeto reúne cerca de 15 mil trabalhadores. Segundo a empresa, a questão da mão de obra foi plenamente equacionada, com as necessidades de contratação atendidas conforme o planejamento do empreendimento, que segue com a entrada em operação prevista para o último trimestre de 2027. Nessa fase, devem ser criados aproximadamente 6 mil empregos.
O resultado está associado ao trabalho desenvolvido pela companhia em parceria com o poder público e instituições do Sistema S, por meio de programas de formação e qualificação profissional.
Para a empresa, além de contribuir para atender às demandas do projeto, essas iniciativas buscam deixar um legado para a região, formando profissionais que poderão atuar em diferentes empresas e setores da economia, ampliando as oportunidades de trabalho e renda e contribuindo, segundo a Arauco, para o desenvolvimento socioeconômico local.
O início do projeto da Bracell, que prevê investir R$ 16 bilhões na construção da fábrica em Bataguassu, está previsto para 2027, quando a empresa deve gerar até 12 mil empregos durante a implementação e cerca de 2 mil postos diretos na operação.
Sem dar novos detalhes sobre a contratação de profissionais para o empreendimento, a Bracell informou que o governo do Estado “segue como porta-voz desse projeto”.
Também na fila de contratação de profissionais, a retomada da UFN-III, em Três Lagoas, prevê gerar cerca de 8 mil empregos diretos e indiretos no decorrer das obras. A Petrobras pretende capacitar 3 mil trabalhadores em parceria com o Sistema S da cidade para atender à unidade de fertilizantes, segundo Abreu. Existe ainda a expectativa de que, após a conclusão da unidade, seja desenvolvida no município a cadeia de distribuição dos insumos que serão produzidos.
Hoje existem mil trabalhadores mobilizados na execução da retomada da fábrica de fertilizantes, em Três Lagoas. A estimativa de aproximadamente 8 mil trabalhadores no pico da obra permanece como projeção da Petrobras, segundo a estatal.
Por enquanto, as contratações da estatal dão prioridade à população local, mas há expectativa de que seja necessário buscar profissionais de outros estados para suprir a demanda, segundo Abreu.
Abreu reconhece a necessidade de um mapeamento oficial das necessidades de capacitação profissional de todas as regiões do Estado, considerando a sazonalidade regional. O dirigente concorda que a indisponibilidade de mão de obra qualificada acaba sendo um impeditivo para a atração de novos investimentos produtivos, representando um desafio para o Estado.
Programas de qualificação
O secretário da Semadesc, Artur Falcette, reforçou que o governo já investe na qualificação profissional por meio de vários programas e parcerias com o Sistema S e preferiu não cravar expectativas para a formação de novos profissionais para atender à demanda local até 2030.
“Prevemos dobrar os recursos destinados ao Voucher Transportador, com a meta de alcançar pelo menos 5 mil habilitados nas categorias D e E até 2030, e ampliar os recursos do Voucher Desenvolvedor para formar pelo menos 400 novos profissionais”, disse o secretário, sem estimar os valores.
Falcette destaca ainda as articulações estaduais com programas de capacitação das próprias empresas. “A proposta para o próximo ciclo (Riedel 2) é dar continuidade às iniciativas que vêm apresentando resultados e ampliar sua oferta conforme as necessidades dos trabalhadores e das empresas.”
O governo “acompanha” ainda a preparação dos municípios que recebem grandes projetos, segundo o secretário.
Infraestrutura
Ampliar os investimentos na infraestrutura logística para o escoamento da produção local é outro desafio para ampliar a competitividade econômica do Estado, na avaliação do diretor da FACE (Faculdade de Administração, Ciências Contábeis e Economia) da UFGD, Enrique Duarte Romero. Ele avalia que a saída seria a integração dos diferentes modais logísticos do Estado para reduzir custos e aumentar a competitividade.
O secretário da Semadesc, que não mencionou os investimentos previstos em infraestrutura logística até 2030, disse que o Estado dará continuidade à ampliação e à manutenção da malha rodoviária, consolidará corredores logísticos e fortalecerá a integração entre rodovias, ferrovias, hidrovias e aeroportos.
Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.



