Bullying vira caso de polícia e leva 78 vítimas à Justiça em 2 anos
Na escola ou fora dela, casos de intimidação vão de "brincadeira de mau gosto" a crime
Dentro ou fora da escola, o risco é o mesmo, mas é na área educacional que o bullying emerge na sua pior forma e muitas vezes, gerando até registros policiais e ações judiciais, porque vira crime. No ano passado, 59 pessoas procuraram a Justiça por terem sido vítimas da chamada intimidação sistemática. Em 2026, até o final de março, já são 19 pelo mesmo motivo, totalizando 78 em dois anos.
RESUMO
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Casos de bullying registrados na Justiça somam 78 em dois anos no estado, sendo 59 em 2024 e 19 até março de 2026. Um adolescente de 16 anos sofreu xingamentos sobre aparência e comportamento, levando a família a pedir R$ 30 mil em danos morais. Autoridades alertam que o ambiente escolar concentra mais casos pelo tempo de convívio entre alunos, que se estende às redes sociais. Palestras de prevenção e capacitação de professores são realizadas para combater o problema.
Os registros do serviço Justiça em Números revelam que 17 processos do assunto foram julgados no ano passado e nove este ano. Em um dos casos a que a reportagem teve acesso, aluno de uma escola privada de 16 anos na época dos fatos (2024), relatou aos pais que estava sendo intimidado na escola e também através de mensagens em grupos de redes sociais.
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O menino era vítima de xingamentos devido à sua aparência, ao cabelo e ao comportamento retraído, sendo chamado de “estranho”, “esquisitão” ou “cabelo de palha”. Em outra ocasião, recebeu, em um aplicativo de mensagens, uma foto dos colegas de sala que zombavam dele e faziam, em grupo, o sinal de silêncio. O jovem se sentiu ameaçado e, então, resolveu contar à mãe tudo pelo que vinha passando desde 2023.
O caso foi levado à escola, que teria realizado palestras e dado advertência aos colegas, entretanto, as intimidações permaneceram e então, a Justiça foi acionada. Não há sentença e a família pede R$ 30 mil em danos morais à escola e aos pais dos colegas que faziam o bullying.
A delegada Daniela Kades, titular da Depca (Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente) afirma que é muito subjetivo saber quando vale ou não levar os casos de bullying à polícia e à Justiça. “Os boletins de ocorrência que são registrados pelas vítimas tem casos graves e outros menos graves, mas essa avaliação é muito particular de quem sofreu a agressão”, comenta.
Kades destaca que as reações diante desses atos também variam e que as vítimas podem desenvolver problemas psicológicos e emocionais, se automutilar, arrancar os cabelos e até se matar. “É preciso dizer que o bullying muitas vezes se direciona para outras frentes, como racismo ou intolerância religiosa, por exemplo” .
Para ela, o fato de o ambiente escolar ser onde mais ocorrem essas intimidações decorre do tempo que as crianças e os adolescentes passam uns com os outros, o que hoje vai além da sala de aula e alcança o ambiente virtual. A delegada avalia que os jovens passam mais tempo na escola — grande parte em período integral — e que esse contato com os colegas se estende em casa, por meio das redes sociais. “São muitas horas juntos”, define.
Daniela, junto com outros servidores da Depca, é responsável por um projeto de palestras em escolas que pretende prevenir e alertar sobre casos de bullying e cyberbullying. Em 2026, o grupo já realizou ao menos 20 desses eventos nas escolas. “A principal meta é fazer o aluno que é vítima saber identificar que ele está sendo vítima e buscar ajuda”, detalha.
Enfrentamento - Coordenadora de psicologia educacional de SED (Secretaria de Estado de Educação), Paola Lopes Evangelista avalia que a maior arma de enfrentamento ao bullying é saber identificar essa violência.
A especialista destaca que o fenômeno se revela na escola com maior frequência porque é um espaço de socialização em que muitas culturas e valores se encontram. “É a escola que recebe as questões e costumes que a sociedade atravessa, como o discurso de ódio, por exemplo, e ali estão adolescentes que ainda não sabem fazer um juízo dos fatos como um adulto”.
Lopes evidencia que o bullying tem características que precisam ser identificadas, como a repetição dos atos de intimidação, precisa haver a real intenção de ferir e humilhar e é feito longe das autoridades escolares. Ela analisa que uma forma de medir a gravidade da intimidação é avaliar o quanto aquela situação faz a pessoa sofrer.
“A vítima precisa primeiro compreender que essa situação de violência sistemática não é normal e procurar ajuda. Não é deixando de ir à escola ou de falar sobre o assunto que o ato vai cessar. Precisa levar para a gestão escolar”, diz.
A coordenadora comenta que as escolas estaduais contam com diversos serviços que capacitam os professores e gestores a perceber essas situações e a lidar com elas. Nelas, os profissionais aprendem que é preciso acolher a vítima, acolher o agressor, entender qual é a motivação do ato e aplicar medidas pedagógicas e, claro, buscar as famílias para fazer esse enfrentamento. “Quem se sentir ofendido e violentado pode formalizar uma denúncia. É um direito, porque há leis que criminalizam o bullying”, defende.
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