Pressão no pronto-socorro aumenta 5% ao ano e concentra déficit na Santa Casa
Segundo o coordenador do setor, o acréscimo se reflete na falta de vagas para internação

As segundas-feiras são os dias mais críticos no maior hospital que atende pelo SUS (Sistema Único de Saúde) em Mato Grosso do Sul, a Santa Casa de Campo Grande. É como se a conta do fim de semana chegasse no primeiro dia útil depois, enchendo salas e corredores do pronto socorro de pacientes acidentados, com doenças crônicas que se agravaram e até com problemas menos sérios que caberiam a outras instituições atender.
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Em entrevista concedida nesta terça-feira (28), quando o cenário no setor que é a porta de entrada do hospital seguia praticamente igual ao dia anterior, Marcos Bonilha disse que a situação não muda, nem melhora e que não há perspectivas para isso. Ele é coordenador médico de lá há mais de 10 anos.
A demanda de pacientes cresce 5% anualmente, segundo Marcos. Apesar de parecer pequeno, o percentual impacta a ocupação dos leitos de internação em outros andares do prédio da Santa Casa.
"Esse acréscimo e a superlotação têm impacto no que a gente chama de conversão. De 52% a 55% dos pacientes que chegam aqui são convertidos em internação. Se eu atender 100 pacientes num dia, eu interno 55. Se eu atender 110, eu interno 57. Isso sempre vai aumentando", descreve.
Esperando leito - Um caso de "conversão" é o do aposentado Sidney Ferreira, 53 anos, morador da Capital que já passou por transplante de rim e tem um longo histórico de complicações relacionadas à diabetes.
Ele chegou ao hospital na segunda-feira, por volta das 13h, após machucar o pé. Às 9h de terça-feira, ainda estava no corredor aguardando um leito para ser internado e tratar da inflamação e da infecção no membro. Sem esse cuidado, o caso pode resultar numa amputação.
"Desde os meus 22 anos venho na Santa Casa. É sempre demorado, mas o atendimento sempre foi bom", disse à reportagem.
A costureira Gislaine Vaz de Cardoso estava na área verde (para pacientes estáveis) do pronto-socorro nesta manhã. A necessidade de internação ainda era incerta.
Ela chegou de madrugada de ambulância após sentir uma dor abdominal forte. Foi atendida por um médico e fez vários exames. Ainda faltava saber se está com apendicite e se terá que operar ou não. Se precisar, a espera por um leito de internação também é provável.
"Senti uma dor abdominal muito forte e me mandaram para cá. Fiquei assustada com a quantidade de pessoas esperando na madrugada. Acho que os exames e os resultados deveriam sair mais rápido", disse.
"Tempo de embarque" e pacientes clínicos - Marcos Bonilha avalia que os dois maiores problemas relacionados à superlotação do pronto-socorro hoje são o boarding no CTI (Centro de Terapia Intensiva), "tempo de embarque" na tradução para o português, e a presença de pacientes chamados de clínicos, que deveriam ser encaminhados para hospitais que atendem quadros menos complexos.
O primeiro se reflete numa espera superior a 10 horas, em média, em comparação ao tempo recomendado para a internação no setor clínico. Mesmo que no pronto-socorro a Santa Casa coloque todos os recursos, medicamentos e cuidados de forma improvisada, o ideal continua sendo o encaminhamento ao CTI dentro do período indicado para assegurar a recuperação.
"Esse tempo que eles ficam aqui antes de subir, é talvez o tempo mais ruim para qualquer paciente que possa existir. Ele deveria estar numa unidade com maior cuidado. A pessoa acaba perdendo aqui. O ideal é que a gente conseguisse liberar mais vagas na terapia intensiva", explica o médico.
Quanto aos pacientes clínicos, o coordenador afirma que percebeu um aumento da presença deles no pronto-socorro da Santa Casa após a saída da Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) da gestão do HRMS (Hospital Regional de Mato Grosso do Sul). Ele completa dizendo que esse problema também tem associação já conhecida com a ineficiência da prevenção de doenças na rede de atenção básica à saúde, que inclui USFs (Unidades de Saúde da Família) e UBSs (Unidades Básicas de Saúde).
Negociações - O responsável pelo pronto-socorro também afirma que a Santa Casa está em "negociação constante" com a Sesau e prefeitura de Campo Grande, responsáveis diretas pela rede pública, e que participa de reuniões e audiências frequentemente no MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul), que tenta intermediar as crises.

No ano passado, a instituição anunciou um déficit de mais de R$ 13 milhões e chegou a paralisar alguns atendimentos, cirurgias e transplantes. O aumento do repasse mensal da prefeitura em R$ 1 milhão e um aporte de verbas do Governo do Estado e da bancada federal de Mato Grosso do Sul chegaram a estancar a questão, mas o desequilíbrio financeiro persiste.
O pronto-socorro é o setor mais deficitário da Santa Casa neste momento, sustenta Bonilha. Enquanto a contratação da prefeitura é de seis leitos na área verde e sete leitos na área vermelha, o número de pessoas ocupando o espaço é oito vezes maior na área verde e duas vezes maior na área vermelha, de acordo com dados divulgados pela assessoria de imprensa nesta terça-feira.
Solução - O coordenador defende que a Santa Casa precisa de mais recursos e de menor sobrecarga para se equilibrar e poder oferecer atendimento com dignidade, com corredores livres. Para ele, a situação é reflexo de uma questão sistêmica que diz respeito à cidade.
"A cidade precisa de leito de terapia intensiva. A Santa Casa tem mais de 100 e não há mais espaço físico para colocar aqui dentro. Precisamos dividir a demanda de pacientes com outras instituições que possam abrir esses leitos. A gente não consegue absorver todos esses pacientes", finaliza.
A reportagem questionou a Sesau e a SES (Secretaria Estadual de Saúde) sobre as medidas em andamento e as previstas para conter a crise. Não houve retorno até a publicação da matéria, mas o espaço segue aberto.
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