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Arquitetura

Ao atravessar fronteira, retrato de uma história de amor virou restaurante

Pepe's é o restaurante que completou 50 anos e mantém memórias de um grande amor que faleceu

Por Thailla Torres e Aline dos Santos | 23/01/2020 06:12
Restaurante guarda memórias de uma história de amor por Helena e pela arte. (Foto: Marcos Maluf)
Restaurante guarda memórias de uma história de amor por Helena e pela arte. (Foto: Marcos Maluf)

A Avenida Dr. Francia, em Pedro Juan Caballero, é o trecho que recepciona quem deixa Ponta Porã com destino à cidade paraguaia vizinha, a 323 quilômetros de Campo Grande. Ali, não só as variedades em produtos, relativamente mais baratos, chamam a atenção de quem passa. Um prédio antigo, de fachada amarela e detalhes em madeira, revela 50 anos do Pepe’s Restaurant, lugar onde clientes alimentam a fome e o afeto.

Na era em que as misturas se acentuam na arquitetura, o prédio mantém detalhes “folclóricos”, do tipo que aguarda o turista, com “estilo fronteira seco” um pouco espanhol e um pouco guarani. É o que interpreta o arquiteto e urbanista Elvio Garabini, que inspirou o Lado B a conhecer o restaurante histórico da fronteira.

Proprietária inaugurou restaurante há 50 anos. (Foto: Marcos Maluf)
Proprietária inaugurou restaurante há 50 anos. (Foto: Marcos Maluf)

Ao passar pelo portão de ferro na entrada, encontramos a proprietária, Helena de Cordoue Lunardelli, 69 anos. Uma mulher enérgica que, mesmo com dores no joelho, se recusa a parar suas atividades. Na recepção, ela abraça e cumprimenta a equipe de reportagem. Essa é a Helena, uma pessoa calorosa, do tipo que fala que “cozinha com amor”.

O restaurante foi aberto em 1969, por Helena e José Lunardelli, o marido, que se despediu da vida em 2009. Filho de italiano que chegou do Paraná para trabalhar numa propriedade do Paraguai, José se apaixonou por Helena e casaram-se em novembro de 1967.

Pepe’s é o José. O apelido nasceu de amigo espanhol que o chamava assim. “Ele dizia que lá não falava José, sim Pepe”, lembra Helena.

Além do aroma de sopa paraguaia legítima, o estabelecimento é um retrato da história de amor vivida entre Helena e José. Ainda hoje, ele está presente em vários pontos do salão.

Ladrilhos nunca foram trocados. (Foto: Marcos Maluf)
Ladrilhos nunca foram trocados. (Foto: Marcos Maluf)
Pepe's tem objetos que estão ali há 5 décadas. (Foto: Marcos Maluf)
Pepe's tem objetos que estão ali há 5 décadas. (Foto: Marcos Maluf)

Logo na entrada, além do nome, há um hall com piso hidráulico que, colocado por José, nunca foi trocado. Entrando, à direita, você se depara com uma porta de madeira, lotada de imagens entalhadas, também feitas por ele, e que demoraram dois anos e meio para ficar prontas. “Ele era um artista de mão cheia”, afirma.

José também pintou um quadro que decora o salão. A imagem mostra o rosto de Helena. “Foi pintado quando a minha filha tinha 40 dias de vida”.

Outra marca do restaurante, que está no cenário há cinco décadas, é uma prensa, utilizada para produzir fardo de crina de cavalo. O objeto pertencia ao pai de Helena e foi trazido de uma fazenda que tinha em Aquidauana.

Local tem decoração que mistura estilos. (Foto: Marcos Maluf)
Local tem decoração que mistura estilos. (Foto: Marcos Maluf)
E luz baixa que dá toque de romantismo. (Foto: Marcos Maluf)
E luz baixa que dá toque de romantismo. (Foto: Marcos Maluf)

A fala que sai da boca da proprietária ilumina o próprio olhar, como quem sente saudade e orgulho do tempo vivido ao lado do grande amor. Nascida em Ponta Porã, filha de mãe paraguaia e de pai francês, Helena, que sempre morou na mesma rua, lembra-se de uma fronteira antiga. “Não tinha telefone, energia elétrica, asfalto, água encanada, água de poço”, recorda.

Ela se define como fronteiriça e garante um cardápio que passeia pela culinária típica a pratos convencionais. Além de opções elaboradas com carnes e peixes, o carro-chefe da casa é a sopa paraguaia feita com fubá de milho branco, “cebola, leite, muito queijo e muito amor”.

A trilha sonora é feita todas as noites por um grupo de música tradicional paraguaia. “Os Caminhantes” têm dois integrantes. Eram cinco, afirma um deles, mas restam dois porque uns se mudaram e o outro faleceu.

Pintura no salão mostra Helena pelos traços do amor José. (Foto: Marcos Maluf).
Pintura no salão mostra Helena pelos traços do amor José. (Foto: Marcos Maluf).

Daquele amor certeiro nasceu um restaurante que ainda guarda nas paredes a essência de um artista. “Ele gostava muito de pintura e de música”, diz Helena. E esse talento marcou a memória de muitos clientes, que, até hoje, voltam ao restaurante para um encontro afetivo com os sabores e as histórias. “O Pepe’s virou uma tradição. Muita gente volta aqui dizendo que esteve com o pai quando era criança e praticamente vê o mesmo salão e a comida tem o mesmo sabor”, conta.

Hoje, toda a família trabalha no restaurante e participa dos trabalhos. Mas o toque final de cada prato é feito por Helena, que não pensa em parar e quer manter viva a história de um amor que fez nascer uma família feliz.

Para quem quiser conhecer o restaurante, o Pepe’s fica na Avenida Dr. Francia, 8500, em Pedro Juan Caballero, no Paraguai.

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