Entre alvenaria e madeira, Marilene é guardiã de porta holandesa do pai
Por fora uma casinha comum no Guanandi, mas por dentro, imóvel de bordadeira esconde relíquias de 1981

Com tempo de sobra para fazer o que quiser, Marilene Sabino Miranda, gosta de observar a vida pela janela da antiga casinha no Bairro Guanandi. Por fora, a residência parece apenas mais uma casa comum da rua. Mas basta olhar com mais atenção para perceber que ali o tempo resolveu ficar. O interior “secreto” é quase todo feito de madeira e guarda relíquias, como a antiga porta holandesa que pertenceu ao pai dela. Aos 79 anos, Marilene, que passou quase metade da vida bordando toalhas, abre as portas da casa praticamente intocada há 45 anos.
Ela conta que mantém o imóvel do jeito que o pai construiu. Até o piso de taco colocado pelo marido continua o mesmo, com defeitos e buracos que ela faz questão de esconder das fotografias. Tem vergonha das marcas deixadas pelo tempo. Apesar de ter sido instalado pelo marido, foi a mãe quem escolheu cada detalhe do piso que ainda cobre a casa.


“A casa era toda de madeira e bem pequenininha. Aí meu pai aumentou, botou tijolo e uma parte ficou madeira. Na sala é tudo madeira. Ele comprou a casa em 1981, aí veio para cá e foi reformando e aumentando, aí ficou desse jeito”.
Sul-mato-grossense, Marilene se mudou ainda criança com a família para Curitiba (PR), mas anos depois retornou para Campo Grande, onde construiu a maior parte da vida. “Minha mãe veio para cá solteira, encontrou meu pai, casaram e eu, pequena, voltei com eles para lá. Estudei lá, casei e tive dois filhos lá. O terceiro nasceu aqui. Chegamos em 1980, aí já comecei a trabalhar como bordadeira”.
O bordado acompanhou Marilene por mais de quatro décadas. Ela só deixou o ofício há dois anos, após a morte da patroa. “São 42 anos de bordado só em Campo Grande. Comecei a trabalhar lá e vim para cá; quando ela faleceu, parei de vez. Tive que vir para cá, para essa casa, para cuidar do meu pai e da minha mãe. Eu já tinha saído daqui, morava no São Francisco.”

Antes, quando era mais jovem, Marilene chegou a morar nos fundos da casa dos pais. Anos depois, voltou para cuidar deles. A mãe faleceu primeiro, o pai há nove anos, e ela permaneceu ali.
“Eu fiquei aqui para tomar conta da casa. Eu sou bordadeira, faço na máquina, só que agora só faço alguma coisinha para dar de presente para alguém”. Marilene teve três filhos e também perdeu o marido. Católica e devota de muitos santos, mantém um altar dentro de casa. Nas paredes, espalha fotografias da família, dos filhos, netos e até do aniversário de 70 anos.
“Tem uma colega professora que é encantada com a casa. Eu fico arrancando as coisas dos cantos para mostrar para ela porque ela gosta de coisas antigas. Ela fica toda boba. Eu amo ficar aqui”.
Ela mostra o cantinho onde costumava costurar e diz que a máquina “é louca de velha”. “Essa máquina comprei logo que cheguei aqui em Campo Grande”.
Na parede do antigo ateliê, guarda emoldurado o holerite do primeiro emprego do filho caçula. O orgulho foi tanto que decidiu transformar o papel em lembrança permanente.
Na cozinha, que não fazia parte da arquitetura original da casa, Marilene mostra que o ambiente ainda segue a mesma estética da sala. O banheiro ao lado também mantém as portas de madeira e a pintura azul feita por ela mesma.
Ali, a casa parece guardar hábitos de outra época: coleções de ímãs na geladeira e “cacarecos” pendurados pelas paredes, como ela mesma define. O cômodo, na verdade, era uma varanda ampliada pelo pai.
Para fechar o passeio pela casa, Marilene mostra o que considera um tesouro: uma antiga porta holandesa de madeira bruta, hoje rara de encontrar fora de fazendas. “Meu pai fez essa porta, pode ver que é de madeira bruta, fez pro cachorro não entrar”.
A porta ainda funciona normalmente, só exige um pequeno ajuste para fechar. Ao olhar para o quintal, Marilene lembra que ali existia uma mangueira enorme, onde a família costumava colocar mesas para os almoços e churrascos.
Hoje, ela passa os dias entre a igreja e a própria casa. Quando não há nada para fazer, conta sem rodeios que se deita na cama para esperar o tempo passar. À noite, costuma assistir a vídeos na internet.
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