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Artes

Com lápis de cor, crianças descobrem o patrimônio de Corumbá

Caderno com 35 ilustrações aproxima estudantes dos casarões, monumentos, paisagens e tradições da cidade

Por José Cândidio e Silvio Andrade, de Corumbá | 31/08/2026 09:50
Com lápis de cor, crianças descobrem o patrimônio de Corumbá
Ilustração resgata as fachadas dos antigos hotéis Galileo e Internacional, construções que ajudam a contar a história de Corumbá.

Uma caixa de lápis de cor pode parecer pouco diante de casarões centenários castigados pelo tempo, pelo abandono e pelo vandalismo. Em Corumbá, Mato Grosso do Sul, porém, ela passou a integrar uma tentativa ambiciosa: ensinar as crianças a conhecer, valorizar e, no futuro, proteger a história da cidade.

RESUMO

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Corumbá, no Mato Grosso do Sul, lançou o caderno de colorir "Corumbá, Meu Patrimônio", com 35 ilustrações de prédios e monumentos históricos, para aproximar crianças do patrimônio arquitetônico da cidade. A iniciativa da Fuphan foi distribuída em escolas e disponibilizada gratuitamente em PDF, coincidindo com obras de restauração de cinco imóveis históricos, com investimento de R$ 21 milhões aprovado pelo Iphan.

Às vésperas de completar 248 anos de fundação, em setembro, a Capital do Pantanal aposta nos pequenos moradores para fortalecer o sentimento de pertencimento a um dos mais expressivos conjuntos arquitetônicos do interior brasileiro.

O instrumento escolhido é o caderno de colorir “Corumbá, Meu Patrimônio”, produzido pela Fuphan (Fundação de Desenvolvimento Urbano e Patrimônio Histórico de Corumbá). A publicação reúne 35 ilustrações de prédios, monumentos, paisagens e elementos arquitetônicos que ajudam a contar a formação da cidade.

Ao escolher as cores para uma janela, uma fachada ou um ladrilho hidráulico, a criança é estimulada a observar detalhes que muitas vezes passam despercebidos até mesmo pelos adultos. Mais do que uma brincadeira, o caderno propõe uma descoberta: a cidade onde se vive também é feita de histórias, memórias e marcas deixadas por diferentes gerações.

Corumbá abriga construções erguidas a partir da década de 1870, muitas delas no período posterior à Guerra do Paraguai. Com forte influência europeia, os edifícios são testemunhas de uma época de prosperidade impulsionada pelo comércio no Rio Paraguai, quando mercadorias, viajantes e diferentes culturas movimentavam o Porto Geral.

Na parte baixa da cidade, os casarões do conjunto arquitetônico tombado pelo patrimônio histórico nacional em 1993 ainda guardam vestígios desse período de bonança. No centro comercial, as construções mais antigas dividem a paisagem com imóveis da era modernista, compondo um mosaico urbano de diferentes épocas e estilos.

Apesar dessa riqueza, parte da população ainda não reconhece plenamente o valor do patrimônio que está diante de seus olhos. O resultado aparece em imóveis abandonados, fachadas pichadas, estruturas deterioradas e construções que acabam derrubadas. Sem conhecimento, dificilmente nasce o vínculo. E sem vínculo, preservar torna-se uma tarefa ainda mais difícil.

Nos últimos anos, o município tem promovido ações de educação patrimonial, campanhas de conscientização e visitas ao circuito histórico. Os avanços, no entanto, ainda são tímidos diante do estado de conservação de muitos prédios.

O caderno de colorir tenta começar essa mudança pela base. A proposta é formar crianças capazes de identificar o patrimônio como parte da própria identidade e também de levar esse conhecimento para dentro de casa.

“Brincando de desenhar, a criança não estará apenas fazendo uma atividade. Vai perceber detalhes, formas e características da arquitetura e compreenderá que aqueles lugares fazem parte da sua própria história”, afirma a arquiteta Lauzie Xavier, diretora-presidente da Fuphan.

Segundo ela, uma ideia simples pode aproximar os estudantes do patrimônio e ajudá-los a reconhecer Corumbá como sua casa, despertando um olhar de carinho, pertencimento e valorização da cidade.

As páginas apresentam o conjunto arquitetônico do Porto Geral, antigos hotéis, a prefeitura velha, igrejas, praças, ladeiras ligadas ao tradicional Banho de São João, estátuas e monumentos. Há ainda plantas urbanísticas dos séculos 19 e 20, desenhos de ladrilhos hidráulicos e paisagens como a estrutura de captação de água no Rio Paraguai e a Avenida General Rondon, emoldurada pelas palmeiras imperiais.

A iniciativa chega em um momento simbólico para o patrimônio corumbaense. Na mesma semana de lançamento do projeto, foram iniciadas as obras de recuperação de cinco imóveis históricos. O município prevê investir R$ 21 milhões nas intervenções, com projetos aprovados pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).

O primeiro prédio contemplado é a Casa do Artesão, instalada na antiga cadeia pública, construída em 1893. O programa de restauração também alcançará o Mercadão Municipal, o Hotel Internacional, a Comissão Mista e a antiga sede da prefeitura.

Enquanto pedreiros, arquitetos e restauradores trabalham para recuperar paredes e fachadas, as crianças são convidadas a reconstruir a relação afetiva da população com esses espaços. Uma frente cuida dos edifícios; a outra tenta garantir que eles sejam respeitados no futuro.

Durante agosto, cerca de 200 exemplares do caderno foram distribuídos nas escolas municipais. A experiência, entretanto, não ficará restrita às salas de aula. A publicação também está disponível gratuitamente, em formato digital, no site da Prefeitura de Corumbá.

Pais, responsáveis, professores, estudantes e demais interessados podem baixar o arquivo em PDF, imprimir as páginas e começar a colorir. A intenção é fazer com que o patrimônio entre nas casas e provoque conversas entre crianças, pais e avós sobre os lugares, as lembranças e as transformações da cidade. Os trabalhos também poderão ser compartilhados com a Fuphan.

No centro do projeto está uma pergunta aparentemente simples: “Você conhece a cidade onde mora?”.

Corumbá espera que, antes mesmo de responder, cada criança observe uma fachada, reconheça um monumento ou repare no desenho de um antigo ladrilho. Porque preservar uma cidade começa por enxergá-la. E, às vezes, um olhar mais atento nasce na ponta de um lápis de cor.

Caderno de colorir