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Comportamento

Após ter casa incendiada, Edson foi morar em árvore pela segunda vez na vida

Há dois meses o pedreiro diz que resolveu recomeçar a vida como "Tarzan" após se separar

Por Alana Portela | 13/12/2019 07:50
Edson Cassio da Silva subindo na árvore que fez virar sua casa. (Foto: Alana Portela)
Edson Cassio da Silva subindo na árvore que fez virar sua casa. (Foto: Alana Portela)

Pensa num cara que diz sofrer por amor e contar uma história digna de roteiro de filme. Este é Edson Cassio da Silva. Ele relata que foi casado por oito anos e morava na favela “Só por Deus” com a esposa até que uma reviravolta o fez virar "Tarzan" e morar numa árvore no bairro Jóquei Clube, em Campo Grande, após a ex-mulher atear fogo na casa onde moravam.

Edson é jovem, e quando a equipe do Lado B chegou ao local, ele topou conversar e desceu da árvore para dar entrevista. Quis mostrar a cara e dar um nome por não ter "nada a esconder". No chão os dois caixotes que são usados como escada para facilitar na hora subir, viraram bancos. Ele sentou em um e deu outro para a reportagem se acomodar.

“Vamos lá, o que você quer saber? Minha história é longa e complicada, mas vou contar. Tudo isso aqui é desilusão amorosa e a vida é tão doida que quando vi já estava morando na árvore. Até eu acho que estou ficando doido, quando dei por mim já tinha acontecido”, diz ele iniciando a entrevista.

As mãos sujas de tanto subir e descer da árvore. (Foto: Alana Portela)
As mãos sujas de tanto subir e descer da árvore. (Foto: Alana Portela)
Edson em cima de um caixote tentando subir na árvore. (Foto: Alana Portela)
Edson em cima de um caixote tentando subir na árvore. (Foto: Alana Portela)
O barraco é improvisado feito com um colchão de casal. (Foto: Paulo Francis)
O barraco é improvisado feito com um colchão de casal. (Foto: Paulo Francis)

“Estava casado há oito anos, conheci minha ex-mulher na favela. Na época, as pessoas me pagavam para construir barracos e ela me viu trabalhando, então conversou comigo e gostou. Falei que não queria nada porque tinha saído de um casamento difícil. Disse que gostou do meu sorriso e aí as coisas foram acontecendo”, lembra.

No início, ele relata que tudo eram flores, até a dependência química de álcool entrar na história, que ele associa às brigas que só se intensificavam. 

Querendo mudar de vida, ele alega que entrou numa clínica de reabilitação e chamou até a esposa, que não aceitou. “Uma vez fui preso porque agredi ela, mas não queria voltar pra cadeia e foi aí que falei que ia embora”, admite. 

Para o Lado B, Edson conta que quando a ex-esposa o viu saindo de casa ficou revoltada. “Disse ‘se vai embora é porque não precisa de nada’, e incendiou o barraco. Não consegui pegar nada e saí andando até que cheguei aqui no bairro e sentei embaixo da árvore”, relata.

Sentado num caixote ele conversou com o Lado B e contou sua história de vida. (Foto: Alana Portela)
Sentado num caixote ele conversou com o Lado B e contou sua história de vida. (Foto: Alana Portela)

Pensando no que ia fazer da vida, ele percebeu que os galhos eram resistentes e a árvore bem folhosa, perfeita para morar. “Sou de Birigui-SP, onde fui casado pela primeira vez, mas também não deu certo e decidi morar na árvore. Sentado lembrei daquela época e decidi ficar ali, porque ninguém costuma olhar pra cima. Não iam me ver e não incomodaria os outros”.

Agora, aos 34 anos, ele diz que é um pedreiro desempregado, que tenta sobreviver como pode. Arrumou madeiras para criar uma base na árvore e pegou um colchão de casal que estava jogado num ferro velho. Andando pela cidade encontrou guarda-chuva que usa para proteger o barraco improvisado, cobertas para os dias mais frios e até ganhou roupas durante ações sociais no bairro. Com chapéu na cabeça, ele tenta aparentar ser uma pessoa comum, mesmo diante das dificuldades da vida.

“Não sou morador de rua que vai estar incomodando na calçada, gosto de ficar na minha sem atrapalhar ninguém. Tinha uma enxada que usava para trabalhar, mas foi roubada e mesmo assim não deixo de procurar serviço de limpeza”.

Há dois meses está morando no local e conta com a bondade dos moradores. “Tem pessoas que me dão marmita, consigo tomar banho num posto de gasolina. Água pego com um vizinho daqui, mas não tenho onde lavar as roupas, então quando não tem jeito jogo fora. Viver na árvore é triste por conta da condição, mas é divertido também, fico subindo, não pago aluguel”.

Sempre que sai para trabalhar, ele consegue trazer algo diferente que ajuda melhorar a estrutura do barraco. “Recentemente trouxe uma lona para proteger da chuva. No começo molhava, mas agora minha preocupação é o vento. À noite a iluminação dos postes me ajudam a enxergar”.

O barraco fica escondido entre os galhos e folhas da árvore (Foto: Paulo Francis)
O barraco fica escondido entre os galhos e folhas da árvore (Foto: Paulo Francis)
Edson lembra das reviravoltas que aconteceu em sua vida (Foto: Alana Portela)
Edson lembra das reviravoltas que aconteceu em sua vida (Foto: Alana Portela)

Edson afirma não querer mais saber de casamento. “Meus pais se separaram, cada um foi pra um canto e eu cresci no mundo, sem amor”, fala.

Edson é uma bússola quebrada, que deixa a vida guiar seu caminho do jeito que bem entender. “Olha, nem sei como vim parar em Campo Grande ou como morei na favela e agora estou aqui. Estou pensando em voltar para Birigui, lá acredito que devo conseguir um emprego com mais facilidade e posso recomeçar, mas vamos ver”, diz.

Apesar de morar na árvore ele diz que passa o dia andando pela cidade atrás de bicos e volta à noite para descansar. Quando não consegue comida, aproveita as mangas para almoçar e jantar. Os que quiserem ajudar podem ir na rua Ouro Branco 827 e falar com o Tião. 

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As árvores são folhosas e têm galhos grossos e fortes no bairro Jóquei Clube. (Foto: Paulo Francis)
As árvores são folhosas e têm galhos grossos e fortes no bairro Jóquei Clube. (Foto: Paulo Francis)
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