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Campo Grande, Domingo, 26 de Maio de 2019

14/12/2018 07:19

Crianças transformaram o medo do autismo em livro emocionante para Vinícius

O começo e o fim desta obra, feita por crianças, são lições sobre como é bom viver as diferenças

Thailla Torres
Atividades escolares renderam livro delicado e emocionante sobre uma criança autista que conquistou novos amigos. (Foto: Henrique Kawaminami)Atividades escolares renderam livro delicado e emocionante sobre uma criança autista que conquistou novos amigos. (Foto: Henrique Kawaminami)

Meu amigo Vinícius

Na minha sala de aula existe uma criança diferente, o Vinícius.
Ele é uma criança autista, mas é muito inteligente, brinca com a gente e ainda é muito engraçado quando fica falando coisas durante a aula (banana, pamonha e outros).
Já percebi que ele gosta de falar palavras com jogos vocais, o que eu acho que todo mundo gosta.
Na minha sala todos ajudam, brincam com ele e ajudam em seu desenvolvimento.
Bom até agora relatei coisas que são de certa forma, clichês. Agora eu vou falar o que eu realmente penso.

O começo e o fim desta carta são um guia sobre as diferenças, criado por uma criança de 12 anos, aluna da Escola Municipal Geraldo Castelo. A menina admite o medo diante de uma condição que não é natural para ela, mas se dispõe a observar o colega autista e entender a riqueza disso.

Apesar de eu não ter uma relação forte com ele, eu admiro quem sempre brinca com ele e abre mão do que realmente gosta de fazer para ajudá-lo.
Ele gosta de brincar de pega-pega, encostando a mão na pessoa e gritando baixo “te peguei”.
O Vini é acompanhado pedagogicamente pelo Diniz, que também cuida do Gabriel, que é um dos melhores amigos do Vinícius.
O grau de autismo dele é médio, e já percebi que ele gosta mais de ficar com quem ele já tem um laço fortalecido.
Quando conheci ele achei que ele tinha 10 ou 11 anos, mas me surpreendi quando descobri que ele tinha 14 anos.
Mas afinal não importa se é autista, gordo, magro, alto, baixo... Todos somos iguais e devemos nos respeitar.

Cartinha escrita por menina de 12 anos, em sala de aula, sobre o amigo autista. (Foto: Henrique Kawaminami)Cartinha escrita por menina de 12 anos, em sala de aula, sobre o amigo autista. (Foto: Henrique Kawaminami)

A carta foi escrita nos últimos meses, em sala de aula, durante atividades pedagógicas do professor e auxiliar pedagógico especializado, Diniz da Cunha Silveira, que acompanha diariamente o aluno Vinícius, de 14 anos, e recebeu da Educação Infantil o desafio de construir um lindo caminho para o menino autista, dentro de sala de aula.

As atividades fizeram parte de um projeto que ensina aos alunos sobre TEA (Transtorno do Espectro Autista). O objetivo é fazer com que os alunos compreendam o comportamento de Vinícius e superem o medo. Mas o trabalho alcançou um feito que nem professor e pais imaginaram: um livro que merece prêmio, pela sinceridade, sutileza e carinho expressados em cores e letrinhas tortas. “Os alunos sentiam medo de Vinícius, não se aproximavam. Decidi então levar o assunto para sala de aula, com intuito que eles respeitassem o colega e entendessem que ser diferente é normal”, conta o professor.

Filmes, apresentações e bate-papos em sala foram alguns dos recursos utilizados pelo professor para falar sobre autismo com leveza. Quando as tarefas foram entregues, Diniz se deu conta que os alunos entenderam Vinícius e mais, estavam dispostos a tornar o dia a dia do amigo melhor. “Alguns desenhos e frases feitas por eles me deixaram muito emocionado. Eu só conseguia pensar que aquilo deveria ser registrado para sempre”.

Vinícius se apresentando para os amigos em sala. Vinícius se apresentando para os amigos em sala.
Durante jogos e brincadeiras com os coleguinhas.Durante jogos e brincadeiras com os coleguinhas.

Foi então que professor e escola decidiram tornar o livro realidade. Em folha de papel couché, desenhos, frases e cartinhas foram impressas. Diniz pagou com o próprio dinheiro os exemplares coloridos para presentear os pais de Vinícius e a escola fez questão de imprimir versões em preto e branco para presentear cada aluno com um exemplar. "Assim eles podem ler, reler e ainda colorir o próprio livro. Ficou simples, mas para os alunos escrever o próprio livro foi algo único".

Nesta semana a escola entregou o livro aos pais de Vinícius, uma surpresa que deixou Luciano Arruda, de 42 anos, cheio de esperança. "Eu e minha esposa sabíamos das atividades, mas não imaginava ver o nome do meu filho na capa de um livro, é a coisa mais linda que aconteceu nos últimos tempos".

Todos os dias, ele sonha com um mundo diferente para o filho e luta diariamente contra o preconceito sobre autismo. "Todo pai e mãe de autista tem uma preocupação em comum: a aceitação do filho. Nossa maior preocupação era como seria a aceitação dele com outras crianças e tivemos uma grata surpresa aqui na escola municipal. Ao longo de quatro anos, é no desenvolvimento do nosso filho que eu vejo o efeito positivo da relação com os professores e os colegas de sala".

Luciano, pai de Vinícius, ficou emocionado ao ver o nome do filho em um livro. (Foto: Henrique Kawaminami)Luciano, pai de Vinícius, ficou emocionado ao ver o nome do filho em um livro. (Foto: Henrique Kawaminami)

Vinícius é dono de um sorriso lindo. O diagnóstico veio depois de longas visitas ao médico, quando os pais perceberam a dificuldade do menino para engatinhar. De um lado o medo, do outro, a coragem para Luciano compreender o que acontecia com o filho. "É um susto muito grande, porque a única coisa que você pensa é no futuro e como a sociedade vai reagir às diferenças".

Os dias não são fáceis, assume o pai que já viveu a dor de ver o filho excluído na família e na escola. "A própria família não entende, pessoas deixavam de cumprimentar Vinícius e as crianças não o chamavam para brincar. Em escola particular de Campo Grande, a diretora convidou meu filho a se retirar da escola, o que vai totalmente contra a ideia de inclusão".

Agora, com o livro, o pai acredita que é possível despertar o olhar sensível das pessoas quanto as características de uma criança autista. "Se outros pais verem esse livro, vão poder compreender que uma criança autista não pode ficar presa em um mundo enquanto ele tentam proteger. Porque isso também aconteceu com a gente, há uma preocupação muito grande e nós devemos lutar e inseri-lo".

Professor Diniz, quem teve a ideia de transformar as atividades em livro. (Foto: Henrique Kawaminami)Professor Diniz, quem teve a ideia de transformar as atividades em livro. (Foto: Henrique Kawaminami)

Para o professor, ver o sorriso de Vinícius na escola é um sentimento que surge apenas para quem entende o valor das pequenas conquistas. "No primeiro dia de aula, ele se escondeu debaixo da mesa. A sala inteira olhava, por isso, fiz questão de assistir aula sentado ao lado dele. Foi o nosso primeiro vínculo. Hoje, ele brinca, corre e conversa com os coleguinhas, mas é um desenvolvimento que a gente só conquista na prática unindo práticas pedagógicas com sensibilidade. Não há outra forma de educar".

Nas fotografias abaixo, algumas páginas com desenhos e frases que integram o livro "Meu Amigo Vinícius" que narra a construção da amizade baseada no respeito. Para tantas mães e pais que sentem o desrespeito cortar a pele, o livro é um abraço e a certeza que podem muito quando lutam ao lado da crianças.

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Amigo descreve o mundinho de Vinícius, que adora dinossauros.  (Foto: Henrique Kawaminami)Amigo descreve o mundinho de Vinícius, que adora dinossauros. (Foto: Henrique Kawaminami)
Um olhar sobre as diferenças traduzido em cores. (Foto: Henrique Kawaminami)Um olhar sobre as diferenças traduzido em cores. (Foto: Henrique Kawaminami)
Além do dinossauro, amigos observam as palavras que o amiguinho repete.  (Foto: Thailla Torres)Além do dinossauro, amigos observam as palavras que o amiguinho repete. (Foto: Thailla Torres)
Autismo é um jeito diferente de ver o mundo. (Foto: Thailla Torres)Autismo é um jeito diferente de ver o mundo. (Foto: Thailla Torres)


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