Soja em MS exige 42 sacas por hectare para cobrir custo na safra 2026/27
Estudo aponta custo de R$ 5 mil por hectare e alerta para peso dos insumos, crédito, clima e arrendamento

O produtor de soja de Mato Grosso do Sul chega ao planejamento da safra 2026/2027 diante de uma combinação de fatores que pode pressionar o resultado da lavoura: custos elevados, endividamento, juros, condições climáticas e ritmo de compra de fertilizantes. Em um cenário de maior cautela, o custo total médio para produzir um hectare de soja foi calculado em R$ 5.024,82, segundo estudo técnico elaborado pela Aprosoja/MS.
RESUMO
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Considerando o preço médio de R$ 119,52 por saca, utilizado no levantamento, o produtor precisa colher 42,04 sacas por hectare para cobrir integralmente o custo de produção. A produtividade de referência adotada é de 52,4 sacas por hectare, correspondente à média das últimas cinco safras.
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Na prática, isso representa uma margem líquida projetada de R$ 1.238,03 por hectare, ou 10,36 sacas, na produtividade de referência. O resultado, porém, está sujeito a mudanças conforme variem o rendimento da lavoura, o preço de comercialização e os valores dos insumos.
“O produtor vem de um período de maior endividamento, o clima continua sendo uma variável importante e também observamos uma compra menor de fertilizantes. Tudo isso precisa ser considerado no planejamento da safra, porque pode impactar tanto os custos quanto o resultado final da produção”, explica o coordenador técnico da Aprosoja/MS, Gabriel Balta.
O estudo foi elaborado com base na Norma de Custo de Produção 30.302 da Conab, adaptada à realidade da agricultura empresarial de soja em Mato Grosso do Sul. Os coeficientes técnicos e os preços dos insumos foram levantados com produtores rurais, técnicos de campo e fornecedores da região, com cotações realizadas entre 1º e 30 de julho de 2026.
Insumos concentram maior parte da conta - O principal peso sobre o custo está nos insumos. O levantamento calcula R$ 3.078,63 por hectare, valor equivalente a 61,27% do custo total. Dentro dessa despesa, os fertilizantes respondem por R$ 1.367,31, os defensivos por R$ 1.071,42 e as sementes por R$ 542,50.
“Isso significa que mais de R$ 6 de cada R$ 10 gastos para produzir um hectare de soja estão concentrados nos insumos”, relata o analista de Economia da Aprosoja/MS, Linneu Borges Filho.
Entre os insumos, os fertilizantes representam 27,21% do custo total, enquanto os defensivos correspondem a 21,32%. Apenas esses dois grupos somam quase metade de todo o custo necessário para produzir a soja.
O estudo aponta a antecipação das compras como uma das principais alternativas para reduzir a pressão sobre o orçamento da lavoura. A recomendação é aproveitar períodos de preços mais favoráveis antes do início do plantio, previsto para setembro.
Além dos insumos, o produtor precisa acompanhar despesas com combustível, crédito e transporte. No levantamento, o diesel foi cotado a R$ 6,45 por litro, enquanto a taxa Selic utilizada como referência foi de 14,25% ao ano. O frete foi calculado considerando uma distância de referência de 80 quilômetros entre a propriedade e o ponto de armazenagem ou comercialização.
Para o analista de Economia Raphael Gimenes, esses componentes também precisam entrar na conta antes da contratação da safra.
Custo operacional é menor, mas ainda exige 38,5 sacas - O estudo separa o custo total entre diferentes categorias. O Custo Variável chega a R$ 4.258,50 por hectare, enquanto o Custo Fixo é de R$ 348,10. Já o Custo Operacional, que representa o valor efetivamente desembolsado para conduzir a lavoura, soma R$ 4.606,60 por hectare.
O Custo Total chega aos R$ 5.024,82 porque inclui também a chamada Renda de Fatores, de R$ 418,22 por hectare. Esse componente representa a remuneração esperada sobre o capital fixo investido pelo produtor e é considerado um custo de oportunidade, e não um desembolso direto de caixa.
Por isso, há dois pontos de equilíbrio no levantamento. Para cobrir o Custo Total, são necessárias 42,04 sacas por hectare, considerando o preço médio de R$ 119,52. Já quando são considerados somente os valores efetivamente desembolsados, o ponto de equilíbrio cai para 38,54 sacas por hectare.
Com a produtividade de referência de 52,4 sacas, o produtor teria 13,86 sacas acima do Custo Operacional, resultando em margem de caixa de R$ 1.656,25 por hectare. Sobre o Custo Total, a sobra projetada é de 10,36 sacas, ou R$ 1.238,03 por hectare.
Arrendamento coloca produtor acima da média de produtividade - A situação é mais apertada para quem produz em terras arrendadas. O estudo considera como referência um pagamento médio de 15 sacas de soja por hectare ao proprietário da terra. Com o preço utilizado na análise, isso representa R$ 1.792,80 por hectare adicionais.
Nesse cenário, o custo total passa de R$ 5.024,82 para R$ 6.817,62 por hectare, um aumento de 35,7% em relação ao produtor proprietário. O ponto de equilíbrio sobe para 57,04 sacas por hectare.
O número fica acima da produtividade de referência de 52,4 sacas por hectare. Segundo o estudo, o arrendatário precisa alcançar produtividade superior à média apenas para cobrir seus custos, ficando mais exposto a oscilações de produtividade, preços e despesas.
A Aprosoja/MS aponta que o cenário reforça a necessidade de negociar valores de arrendamento compatíveis com a produtividade efetiva dos talhões e de incluir essa despesa no fluxo de caixa e na definição do preço mínimo de venda da produção.
Frete já entra no custo - Outra mudança destacada no estudo é a inclusão do transporte no Custo Total a partir da safra 2026/2027. O cálculo considera uma distância de referência de 80 quilômetros entre a propriedade e o ponto de armazenamento ou comercialização.
O valor estimado para o transporte é de R$ 174,68 por hectare, equivalente a 3,48% do Custo Total. Para propriedades localizadas a distâncias diferentes da referência, o estudo orienta que o produtor faça uma nova estimativa conforme a rota utilizada.
A logística é relevante para Mato Grosso do Sul porque o próprio estudo destaca as dificuldades relacionadas ao armazenamento e ao escoamento da produção. O Estado se consolidou entre os principais produtores brasileiros e, na safra 2024/2025, produziu 14,6 milhões de toneladas de soja, segundo dados do Projeto SIGA-MS citados no documento.
Clima entra no planejamento da safra - Além da conta financeira, o produtor precisa considerar o comportamento do clima durante o ciclo da soja. A previsão para Mato Grosso do Sul entre setembro e novembro indica chuvas próximas ou acima da média, mas com possibilidade de irregularidade na distribuição das precipitações, especialmente no começo da transição entre o período seco e o chuvoso.
O cenário também aponta temperaturas acima da média e possibilidade de períodos de calor intenso e ondas de calor. A previsão do Cemtec/Semadesc indica ainda a permanência do El Niño, que pode influenciar as condições climáticas no Estado.
Assim, mesmo com a perspectiva de volumes de chuva próximos ou superiores à média, a distribuição das precipitações é um fator que pode interferir no planejamento do plantio e no desenvolvimento da lavoura.
Produtividade projetada cai 13,2% - O cenário de produtividade também exige atenção. Conforme a estimativa do Projeto SIGA-MS, executado pela Aprosoja/MS com recursos do Fundems/Semadesc, a primeira safra 2026/2027 tem expectativa de rendimento de 52,4 sacas por hectare.
Esse resultado representa uma redução de 13,2% em relação à safra anterior. A produtividade projetada é justamente a mesma utilizada pela Aprosoja/MS como referência para calcular o custo e a margem da nova safra.
Por isso, a margem positiva indicada no estudo não deve ser interpretada como garantia de resultado. O próprio levantamento ressalta que o ganho projetado é sensível a três fatores principais: produtividade efetivamente obtida, preço de venda no momento da comercialização e variação dos preços dos insumos entre a contratação e a aplicação.
Planejamento começa antes do plantio - Com o plantio previsto para começar em setembro, julho e agosto são apontados pelo estudo como período decisivo para organizar a contratação de insumos, máquinas e crédito rural.
Na avaliação da Aprosoja/MS, o produtor deve monitorar especialmente os custos dos insumos, do diesel, do crédito e da logística. A entidade também aponta a possibilidade de comparar periodicamente o preço futuro da soja com o Custo Total para avaliar estratégias de comercialização antecipada.
O estudo conclui que, com a produtividade de referência de 52,4 sacas por hectare, a safra 2026/2027 mantém uma margem positiva para o produtor proprietário. Ao mesmo tempo, ressalta a sensibilidade dessa margem aos custos de insumos, crédito e logística, fatores que podem ser acompanhados e, quando possível, contratados ou fixados antes do início do plantio.

