ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
SETEMBRO, QUARTA  02    CAMPO GRANDE 19º

Meio Ambiente

Pelagem funciona como ‘impressão digital’ para identificar tamanduás-bandeira

Estudo analisou 553 registros e criou catálogo que pode aprimorar o monitoramento da espécie

Por Inara Silva | 02/09/2026 14:04

As marcas naturais da pelagem podem funcionar como uma espécie de identidade dos tamanduás-bandeira e ajudar pesquisadores a reconhecer o mesmo animal em fotografias feitas em diferentes períodos. A partir da análise de 553 registros obtidos por armadilhas fotográficas no Pantanal e no Cerrado, cientistas liderados pelo ICAS (Instituto de Conservação de Animais Silvestres) organizaram um catálogo visual com características que permitem diferenciar os indivíduos e ampliar o acompanhamento da espécie ao longo do tempo.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

Cientistas do ICAS desenvolveram um catálogo visual que utiliza marcas naturais da pelagem, como faixas e manchas, para identificar individualmente tamanduás-bandeira no Pantanal e Cerrado. O estudo, publicado na Mammal Research, sistematiza a análise de registros fotográficos para monitorar a espécie, classificada como vulnerável. A técnica permite acompanhar a longevidade e o deslocamento dos animais, servindo de base para o futuro treinamento de sistemas de inteligência artificial.

Publicado na revista científica Mammal Research, o estudo envolveu cerca de 120 horas de análise. Dos 553 registros avaliados, 36 imagens que atendiam aos critérios de visualização da pelagem foram selecionadas para compor o catálogo.

Autor do estudo, o biólogo Gabriel Massocato explica que a identificação considera uma combinação de características, principalmente as duas faixas brancas e a faixa escura do dorso, as manchas próximas aos cotovelos e o chamado “bracelete”, nas patas dianteiras. Espessura, curvatura, distância, formato e contraste dessas marcas variam entre os animais. Detalhes no pulso, na crina e nas patas também ajudam na diferenciação.

A pesquisadora Alessandra Bertassoni ressalta que nenhuma dessas marcas, isoladamente, identifica um animal. “O que funciona como identificador individual é a combinação de várias características. Usando esses elementos, conseguimos construir uma espécie de identidade visual de cada animal a partir de um conjunto de detalhes da sua pelagem.”

Pelagem funciona como ‘impressão digital’ para identificar tamanduás-bandeira
Imagem demonstra critérios avaliados por pesquisadores para identificar os animais. (Foto: Divulgação)

Identificação ganha critérios - Reconhecer tamanduás-bandeira individualmente por fotografias não é uma técnica nova. Estudos anteriores já demonstraram que as marcas naturais da pelagem podem ser usadas para essa finalidade. O avanço do novo trabalho está em organizar visualmente essa diversidade e criar uma referência para orientar as comparações.

Segundo Alessandra, profissionais que trabalham há anos com a espécie desenvolvem um olhar treinado para perceber diferenças entre os indivíduos. O catálogo sistematiza esse conhecimento ao indicar quais características devem ser observadas e como podem variar, além de servir de referência para pesquisadores menos experientes.

No campo, porém, a identificação enfrenta dificuldades. Os pesquisadores não controlam a distância, o ângulo ou a iluminação no momento em que o animal passa diante da câmera. Massocato explica que imagens diurnas ou produzidas com flash de luz branca permitem observar detalhes mais sutis. Registros infravermelhos também podem ser utilizados quando as marcas são suficientemente distintas.

A definição de características principais e complementares facilita a comparação de fotografias produzidas em diferentes condições.

Uma fotografia, mais informações - Identificar qual tamanduá aparece diante da câmera amplia o valor científico das imagens. Em vez de apenas confirmar a presença da espécie, os pesquisadores podem saber quais indivíduos utilizam determinada área, por quanto tempo permanecem e se voltam a aparecer meses ou anos depois.

"Reconhecer um mesmo tamanduá ao longo do tempo transforma uma fotografia em uma informação científica muito rica. Em vez de sabermos apenas que há tamanduás em determinada área, podemos entender quais indivíduos estão ali, por quanto tempo permanecem e como utilizam a paisagem”, destaca Alessandra.

Em pesquisas de longa duração, esse acompanhamento pode contribuir para estimativas populacionais e estudos demográficos e de ecologia espacial. A informação ganha relevância porque o tamanduá-bandeira (*Myrmecophaga tridactyla*) é atualmente classificado como Vulnerável à extinção pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza).

Segundo Massocato, reencontrar um mesmo indivíduo em diferentes registros permite acompanhar sua trajetória e saber onde e quando voltou a aparecer, informações que ajudam a compreender a população e sua relação com a paisagem.

Pelagem funciona como ‘impressão digital’ para identificar tamanduás-bandeira
Tamanduá-bandeira monitorado pela equipe do ICAS carrega filhote no dorso (Foto: Divulgação)

Pesquisa em Campo Grande - O estudo é resultado do monitoramento de longo prazo desenvolvido pelo ICAS desde 2017, que já acompanhou mais de 100 tamanduás-bandeira para compreender o deslocamento e o comportamento da espécie no Cerrado.

Desde maio de 2024, a pesquisa também ocorre na APA (Área de Proteção Ambiental) do Guariroba, em Campo Grande, onde 30 animais já foram monitorados. Diferentemente das áreas estudadas em Nova Andradina, o local tem menor interferência de rodovias e predominância da pecuária extensiva.

O acompanhamento permite investigar aspectos como dispersão, reprodução, maturidade sexual, longevidade e comportamento parental, além de comparar populações submetidas a diferentes condições da paisagem.

Parte dos animais utiliza coletes com GPS e VHF, que registram a localização em intervalos de aproximadamente 20 minutos. Os dados ajudam a reconstruir deslocamentos e entender como a espécie responde a paisagens modificadas por rodovias, monoculturas, áreas urbanizadas e outras atividades humanas.

Entre os animais acompanhados estão jovens em fase de dispersão, quando deixam a área natal em busca de novos territórios. Os pesquisadores os chamam de “detetives ecológicos”, porque seus deslocamentos revelam rotas entre habitats, áreas que ainda mantêm conectividade e pontos que funcionam como barreiras ou oferecem maior risco.

“Um tamanduá não reconhece os limites que colocamos em um mapa. Para sobreviver e se reproduzir, ele precisa encontrar alimento, abrigo, parceiros e caminhos seguros para se deslocar”, afirma o presidente do ICAS, Arnaud Desbiez.

Segundo ele, acompanhar esses trajetos ajuda a identificar áreas estratégicas para manter ou recuperar a conexão entre habitats.

Pelagem funciona como ‘impressão digital’ para identificar tamanduás-bandeira
Autor do estudo, o biólogo Gabriel Massocato durante montagem da câmera (Foto: Divulgação)

Inteligência artificial - Além de orientar a identificação visual, o catálogo poderá servir de base, no futuro, para o desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial capazes de auxiliar no reconhecimento dos animais.

A tecnologia ainda não foi desenvolvida. A perspectiva é que a base organizada de imagens possa ser utilizada para treinar algoritmos capazes de comparar grandes volumes de fotografias e apontar possíveis correspondências entre indivíduos. A aplicação seria especialmente útil porque redes de armadilhas fotográficas podem produzir milhares ou até milhões de imagens.

“Esse catálogo pode ser o pontapé inicial para treinar ferramentas de inteligência artificial capazes de automatizar parte desse processo”, afirma Alessandra.

A pesquisadora ressalta, no entanto, que a tecnologia não substituiria o conhecimento dos pesquisadores, mas funcionaria como ferramenta auxiliar diante do grande volume de registros. Segundo Massocato, a automatização permitiria analisar quantidades maiores de informação e integrar a experiência humana às ferramentas computacionais.

A metodologia também poderá inspirar estudos com outros mamíferos que apresentam padrões naturais mais sutis ou de baixo contraste, como tamanduás-mirins, antas e onças-pardas.

Para Desbiez, o conhecimento acumulado a partir do acompanhamento dos indivíduos ajuda a compreender as necessidades da espécie e orientar sua conservação.

“Cada tamanduá que acompanhamos nos ensina alguma coisa sobre a paisagem. Quando conseguimos reconhecer esse indivíduo novamente, meses ou anos depois, acrescentamos um novo capítulo à sua história”, conclui.

O artigo completo está disponível na página da revista científica Mammal Research.

Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.