Leucena resiste, rebrota e desafia operação ambiental em áreas verdes da Capital
Manejo reúne motosserras, caminhões e trabalho braçal em tentativa contínua de recuperar fundos de vale

O silêncio do córrego só é quebrado pelo barulho das motosserras, pelo estalo seco dos galhos caindo e pelo esforço das máquinas tentando arrancar raízes que parecem não terminar nunca. Em um trecho da Avenida Gabriel Spipe Calarge, próximo à ponte da Rua Hikaru Kamiya, tratores chegam a se inclinar quando puxam do solo algumas das leucenas que, durante décadas, dominaram as margens do Córrego Bandeira. A cena ajuda a explicar por que a retirada da espécie em Campo Grande virou um trabalho de longo prazo, cheio de tentativa, erro e aprendizado diário.
RESUMO
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Equipes da prefeitura de Campo Grande trabalham na retirada da leucena, planta invasora que dominou margens de córregos por décadas. O processo envolve máquinas, agrônomos e biólogos, e a erradicação total é considerada improvável. O foco agora é o controle contínuo e a recuperação gradual das áreas, com replantio de espécies nativas do Cerrado. A espécie, introduzida nos anos 1980 como solução ambiental, tornou-se um problema por crescer rapidamente e impedir o desenvolvimento de outras plantas.
Longe do debate político e legislativo que passou a cercar a leucena, a rotina das equipes da prefeitura mostra um cenário mais complexo do que simplesmente “cortar árvores”. Técnicos, agrônomos, biólogos e trabalhadores de campo dizem que a cidade ainda está aprendendo, na prática, como controlar uma espécie que cresceu rápido demais, se espalhou por áreas degradadas e hoje exige uma convivência técnica quase inevitável.
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A própria equipe admite que falar em erradicação total parece improvável. O foco passou a ser controle contínuo e recuperação gradual das áreas tomadas pela planta. “A ideia é aprender a controlar e conviver da melhor forma possível, impedindo que ela volte a dominar áreas sensíveis”, resume o engenheiro agrônomo Sérgio Luiz Ferreira Júnior, da Sisep (Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos).
Segundo ele, a prefeitura trabalha há anos observando o avanço da leucena em nascentes, fundos de vale e regiões afetadas por obras ou degradação ambiental. “Sempre que uma área é limpa, a leucena costuma ser a primeira espécie a ocupar o espaço novamente. Em nascentes e margens de córregos isso acontece muito. Ela forma praticamente um tapete e impede o desenvolvimento de outras plantas”, explica.

A ironia, segundo os próprios técnicos, é que a leucena chegou a ser vista como solução ambiental. Originária da América Central, provavelmente do México, a espécie foi introduzida na região ainda nos anos 1980 com a proposta de ajudar na recuperação de solos degradados e pastagens.
Durante muito tempo, chegou a ser recomendada em projetos ambientais por crescer rápido, produzir matéria orgânica e melhorar o solo. “Ela veio como solução ambiental e acabou virando um problema ambiental em muitos locais”, resume Sérgio.
Parte dessa capacidade de dominar o ambiente está justamente na biologia da planta. A leucena cresce rapidamente, fixa nitrogênio no solo e ainda libera um composto chamado mimosina, que interfere na germinação e no crescimento de outras espécies. “Ela não só cresce rápido, como também dificulta que outras plantas ocupem aquele espaço”, afirma o agrônomo.
Mas o discurso das equipes está longe de demonizar completamente a árvore. Pelo contrário. Uma das partes mais curiosas do trabalho atual é justamente a tentativa de entender o que pode ser aproveitado da leucena sem permitir que ela volte a dominar as áreas.
“O que estamos estudando agora é justamente como aproveitar essas características de forma controlada nos processos de recuperação ambiental”, explica Sérgio. Segundo ele, a produção de matéria orgânica e a capacidade de fertilização natural do solo ainda podem ser úteis, desde que exista manejo contínuo.
Esse aprendizado acontece diretamente no campo. Em uma área da Avenida Senador Antônio Mendes Canale, às margens do mesmo Córrego Bandeira, a paisagem já mudou bastante. Onde antes havia concentração de leucenas, hoje começam a crescer espécies nativas do Cerrado. Ipês, angicos, embaúbas, paineiras e canafístulas disputam espaço em um cenário ainda em recuperação. O trabalho ali já dura oito meses.
Encarregado da equipe de campo, Marfo Estevão Corrêa, de 80 anos, acompanha diariamente o crescimento das mudas. “Tem lugar que hoje já está tudo levantadinho. Antes era bem baixinho”, conta. Ele explica que o serviço não termina no plantio. Depois da retirada das leucenas, as equipes retornam constantemente para limpeza, manutenção e controle das rebrotas. “Se abandonar, ela toma conta rapidamente”, resume.

A rotina mistura enxada, poda, plantio e observação contínua. Marfo usa uma expressão simples para explicar parte do trabalho: “levantar na saia”. É o corte dos galhos mais baixos para estimular o crescimento das árvores para cima. “A gente faz essa limpeza para ajudar no desenvolvimento”, diz.
Mesmo após décadas de trabalho pesado, ele fala da recuperação das áreas quase com orgulho de jardineiro. “Gosto demais. Não tenho problema nenhum com esse serviço”, afirma. Mas também admite que a estrutura já foi melhor. Segundo ele, faltam máquinas que antigamente ajudavam na manutenção contínua das áreas. “Em vez de fazer tudo manualmente, algumas partes poderiam ser feitas mais rápido com equipamento.”
Ao lado dele, o trabalhador Valdir Nunes da Silva, de 64 anos, seguia abrindo espaço com a enxada entre as mudas recém-plantadas. Perto da aposentadoria, ele resume o serviço de forma direta: “Tem que fazer tudo. Plantar, limpar, cortar as leucenas. Não tem como escolher só uma parte. O serviço é completo.”
As dificuldades aumentam nas áreas onde a retirada ainda está em andamento. Na Gabriel Spipe Calarge, a operação exige praticamente uma força-tarefa. São três máquinas, cinco caminhões, seis caçambas e cerca de 20 trabalhadores atuando ao mesmo tempo.

Além das raízes profundas, existe o desafio do trânsito intenso e da proximidade com a rede elétrica. “Qualquer movimentação exige bastante cuidado”, explica o biólogo Ricardo Lima, que acompanha a operação.
Segundo ele, o trabalho é lento porque as equipes tentam evitar impactos ainda maiores no solo e nos córregos. Em muitos casos, parte das raízes e dos tocos permanece enterrada justamente para reduzir erosões e evitar que as chuvas carreguem sedimentos para dentro da água. “Se remover tudo, pode abrir grandes crateras”, explica Sérgio.
Mesmo acostumado com a rotina, Ricardo admite que as raízes ainda impressionam. “Algumas chegam a curvar as máquinas quando puxam do solo”, relata.
Enquanto parte da população estranha o corte de árvores aparentemente verdes e saudáveis, as equipes dizem que o cenário começa a mudar aos poucos. “Muita gente para para perguntar o que está acontecendo. Então a gente explica o problema da leucena e o que será feito depois”, conta Ricardo. Segundo ele, a divulgação sobre o tema ajudou a ampliar a compreensão da população.
O curioso é que, no meio da poeira, do barulho e das operações pesadas, os trabalhadores já conseguem imaginar o resultado final. Ricardo fala das margens do córrego quase como quem projeta um parque futuro. “Eu imagino essa área daqui uns 10 anos, com várias espécies crescendo e florescendo. Vai ficar muito bonita", termina.
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