Antonio Carlos Robert Moraes (1954-2015), “Tonico”, vivo em nós
É tentador – e, pour cause, imprudente –, ensaiar uma meditação sobre o que resta de Antonio Carlos Robert Moraes (1954-2015), Tonico, geógrafo e professor da USP, morto em São Paulo, no 16 de julho de 2015, aos 61 anos.
Às vésperas do início do martírio que o ceifaria, ele estava nitidamente em seu melhor. A sua inteligência fluía. As suas manifestações eram mais e mais assertivas. A sua presença, mais vibrante.
Os seus interesses intelectuais, cada vez mais em mares distantes, diversos, mais profundos, mais revoltos e desconhecidos. Marcando época. Ampliando territórios. Renovando a sua – e a nossa – forma de pensar. Aquém e além fronteiras. Induzindo a todos – alunos, leitores, admiradores e mesmo detratores – a reconhecer nele um modelo. O que acaba nos impondo, dez anos sem ele, a perceber que, dele, resta tudo. Tudo mesmo. Só não mais – é claro – ele próprio.
Puro produto do momentum 1964-1968, ele foi a síntese daquela geração foi ser gauche na vida. Refugiando-se na Cultura e superando os seus “grilos” pela Educação, pelo engajamento e pela convicção.
Tonico se fez intelectual, acadêmico, geógrafo e professor da USP.
Cursou Geografia de 1973 a 1977 e depois Ciências Sociais de 1974 a 1979. Preferiu a Geografia sem jamais abandonar a outra. Tornou-se professor do Departamento de Geografia em 1982. Fez-se mestre em 1983, doutor em 1991, livre-docente em 2000 e titular em 2004. Firmando-se como autoridade em sua área. E, para muitos, fazendo-se o geógrafo mais criativo de sua geração.
A sua estreia foi um livro: Geografia. Pequena História Crítica, publicado em 1981 sob os auspícios do saudoso professor Armando Correa da Silva (1931-2000). Um livro curto, sintético e agradável. Vindo a público em momento oportuno e tornado sucesso em instantâneo. Com pouco mais de cem páginas, ele recobriu uma lacuna oceânica nos estudos introdutórios à Geografia Brasil. Concatenando e atualizando o saber sabido numa linguagem corrente e elegante e, por isso, tornando-se uma referência obrigatória naquele país às vésperas de redemocratizar-se.
Era claro que em 1981 os embates de Fortaleza de 1978 – onde e quando os geógrafos se encontraram e quiseram tudo mudar – ainda se faziam notar. A ambiência de redemocratização, mesmo que lenta, gradual e segura, lançava seus fluidos sobre todos os campos de atuação da Geografia. Aquele baiano, nascido em Brotas, de nome Milton Santos (1926-2001) estava de volta e bem perto de ser totalmente reintegrado à universidade brasileira. De maneira que o que havia de melhor da reflexão sobre Geografia no mundo começava a arejar a mentalidade das novas gerações de geógrafos brasileiros.
Nesse contexto, Geografia. Pequena História Crítica apareceu como um bálsamo e virou produto e também o emblema desses novos tempos.
Tempos de mudança. Tempos de mutação. Que alçariam o próprio Tonico à condição de referência. Uma condição que o obrigaria a renovar-se progressivamente. O que aconteceu em seus feitos e obras a seguir. Notadamente com Geografia Crítica em 1984, Ideologias Geográficas em 1988, A Gênese da Geografia Moderna em 1989, Meio Ambiente e Ciências Humanas em 1994, Bases da formação territorial do Brasil em 2000, Território e História no Brasil em 2002, Território da Geografia de Milton Santos em 2014 – adicionadas a um sem número de artigos, relatórios, entrevistas, conferências e aulas.
Um livro mais intrigante que o outro. Um artigo, uma palestra, uma aula mais percucientes que os anteriores. Oxigênio puro para se pensar a Geografia, entender o mundo e mudar o Brasil.
Foi o Tonico.
Mas não todo ele.
Pois, malgrado imenso geógrafo, a bem ver, ele era inquieto, intenso e voraz demais ancorar numa única área. É certo que ele encarnava como poucos aquele “pour l’enfant amoreux de cartes et d’estampes/L’univers est égal à son vaste appétit” [para uma criança amante de cartas e selos/o universo é igual ao seu vasto apetite] dos versos de Baudelaire. Mas o seu apetite ia muito além da Geografia.
Vindo das Minas Gerais, de Poços de Caldas, onde nasceu nos primeiros dias de junho de 1954, mês e pouco antes do suicídio de Getúlio Vargas, ele chegou em São Paulo menino, aos cinco anos de idade, onde e quanto teve tempo e motivação para ver, sentir, cheirar e amar a euforia dos anos dourados dos tempos de JK. Tempos que não voltariam mais. E, talvez por isso, restariam tão marcantes no seu imaginário.
São Paulo ainda transpirava o frisson de seu Quarto Centenário e o glamour dos gramados. A arte Brecheret ainda inebriava olhares. Mas era a seleção de Feola que dava o tom. Pelé, Garrincha, Didi, Nilton Santos aceleravam corações. Com aqueles 5 a 2 nos suecos em pleno Råsunda, esses “gênios da raça” vestiram o país inteiro em chuteiras. O Rio de Janeiro muito. São Paulo ainda mais. Fazendo verdadeira a alegria dos versos “A taça do mundo é nossa/Com brasileiro, não há quem possa/Eh, eta, esquadrão de ouro/É bom no samba, é bom no couro.”
Tonico cresceu nesse frenesi. Que foi adicionado às aventuras daquele argentino, aspirante a médico, de nome Ernesto, que chegou à Sierra Maestra, em Cuba, para unir-se às frentes dos irmãos Castro contra Fulgêncio Batista e às notícias das escaramuças planetárias entre Paris e Argel que ele lia na cobertura internacional do jornal Estadão, dirigido pelo inesquecível professor Oliveiros Ferreira (1929-2017).
Tonico já era moço e quase totalmente paulista, quando viu o mundo e o Brasil mudar. Por aqui, fazia-se Brasília. Belém-Brasília. Cinema Novo. Bossa Nova. João Gilberto (1931-2019). Chega de Saudade. Augusto Boal (1931-2009), Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006), Teatro Experimental. Visão abstrata na Bienal. Zoológico em São Paulo. Arquidiocese em Aparecida. Furnas em Minas.
Operação Pan-Americana em Washington. Sudene no Nordeste. Mais Ford e mais Volks no Brasil. Estradas e mais estradas. Modernização, industrialização, internacionalização. Plano de Metas em ação. Cinquenta anos em cinco. Entusiasmo. Inspiração. Alegria. Nova bossa. Meta-síntese. Que começou a ruir naquele agosto de 1961. Quando o presidente Jânio Quadros acelerou o país no desconhecido. Matizado em 1964 e embalsamado em 1968. Avariando e interrompendo todos os sonhos das gerações nascidas depois de 1930 e tornadas jovens e adultas com o regime militar em face. Nitidamente o caso de Tonico. Que, aí, levou a sério o chamado de Drummond e foi ser gauche na vida. Dando adeus a Marighela e aos ensinamentos de Régis Debray. Indo abraçar a contracultura. Especialmente Helio Oiticica. Que incentivava a todos “Seja Marginal, Seja Herói”.
Tonico foi, ao fundo, isso: “marginal” e “herói”. Resistindo às ilusões e navegando a contravento.
Um vento contrário que o levou a integrar as primeiras turmas do Colégio Equipe. Inclinar-se para as Humanidades, para as Ciências Humanas e para a Geografia. Decidir-se pela Geografia e pela USP, onde foi admitido, em primeira colocação, em 1973. Decidir-se, depois, também, pelas Ciências Sociais, também na USP em 1974, onde também seria admitido em primeira colocação.
Vivia-se o momento Geisel-Golbery-Silveira. Anunciava-se a abertura. Tudo – ou quase tudo – estava, portanto, por fazer-se, renovar-se, refazer-se. Tipo a Refazenda que cantava Gilberto Gil. Tonico investiu-se nisso como missão. E teve êxito.
Na USP, por tudo isso, ajudou a refundar do DCE em 1975. Fora dela, aproximou-se do PCB. Anos depois participaria da refundação da UNE. No mesmo tempo, seria importante na construção do Sinpro – Sindicato dos Professores do Ensino Privado. Com o avanço da abertura, aproximar-se-ia do MDB, de Ulysses Guimarães e Franco Montoro, e fundaria o diretório do partido na Vila Madalena em 1978. Dois anos depois, em 1980, bacharel em Geografia e Ciências Sociais, participaria da aventura acadêmica mais progressista do país que era a Unicamp. Em 1982, seria admitido como professor da USP, onde permaneceria até partir. Sempre “marginal” e sempre “herói”. Mesmo quando essas atitudes de fina autenticidade saíram de moda.
Por moda ou sem ela, nesse início dos anos de 1980, ele tornar-se-ia eurocomunista. Divergiria do PCB. Inclinar-se-ia para o PMDB. Continuaria as suas leituras sobre de Antonio Gramsci (1891-1937) e seguiria o seu cultivo das teses Partido Comunista Italiano. Transpondo as suas ideias e ideais em a Voz da Unidade e na revista Temas de Ciências Humanas.
Tudo fluía rápido.
O ano ainda era 1982.
A história parecia acelerar-se.
Tonico queria de tudo participar.
E, por isso, foi compor a equipe de formulação do plano de governo do governador Franco Montoro (1916-1999. Levando uma vida a mil como militante político, professor da USP e ator de destaque da renovação da Geografia no Brasil.
E teve mais.
Ele seria uma das peças angulares da renovação da Adusp – Associação dos Docentes da USP e, adiante, da Andes – Sindicato Nacional dos Docentes de Instituições de Ensino Superior. Seria consultor da presidência da República para assuntos climáticos a partir 1986. Assessor científico da Fapesp a partir dessa mesma época. Animador de grupos de trabalho no Ibama. E, em 1988, fundador do PSDB.
O que vem depois na vida de Tonico vai bastante conhecido: a sua presença crescente e marcante na vida acadêmica e no debate público até apagar-se em julho de 2015.
Meditando-se sobre esses dez anos sem ele, resta a convicção de que dele, Tonico, resta tudo. Menos – é claro – ele.
Resta a memória de alguém que foi expoente e síntese de sua época. Restam as suas obras. Restam as suas ideias. Resta uma maneira irreverente – e rigorosa – de entender o mundo e o Brasil.
Restam provocações. Resta uma militância. Resta o desejo de mais democracia. Resta uma certa ideia de excelência. E, sob pena de indiscrição, resta o seu sorriso, o seu olhar, os seus silêncios, a sua contrição, as suas baforadas e a sua joie de vivre.
Resta tudo.
Tonico segue presente.
Mas, mesmo presente, faz muita falta.
(*) Daniel Afonso da Silva, pesquisador do Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais da USP
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