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PF investiga estelionato envolvendo dono de lotérica fechada pela Caixa

Alvo da investigação é servidor da UFGD, acusado de vender estabelecimento que já tinha sido bloqueado

Por Helio de Freitas, de Dourados | 30/03/2026 16:32
PF investiga estelionato envolvendo dono de lotérica fechada pela Caixa
Lotérica fechada em Sidrolândia após desfalque; dono vendeu estabelecimento já encerrado (Foto: Reprodução)

A Polícia Federal instaurou inquérito para investigar denúncia de estelionato supostamente praticado pelo proprietário da Lotérica São Bento, localizada em Sidrolândia, a 71 km de Campo Grande. O caso envolve uma série de irregularidades, inclusive transações fictícias através de boletos falsos.

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A Polícia Federal instaurou inquérito para investigar Waltecir Cardoso Pereira, servidor da UFGD e proprietário da Lotérica São Bento, em Sidrolândia, acusado de vender o estabelecimento por R$ 520 mil mesmo após seu encerramento pela Caixa Econômica Federal. Os compradores pagaram R$ 285 mil e só descobriram a fraude depois de assinar o contrato. O caso envolve boletos falsos e desvio de R$ 351 mil.

Servidor concursado da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados), Waltecir Cardoso Pereira também é acusado de aplicar golpe em dois douradenses, que compraram a lotérica acreditando que o negócio estava ativo. O valor combinado foi de R$ 520 mil, dos quais R$ 285 mil foram pagos.

Depois que assinaram a compra em 7 de março de 2025 e fizeram o pagamento, os compradores descobriram que o sistema tinha sido bloqueado pela Caixa Econômica Federal em 21 de fevereiro do mesmo ano. Ou seja, quando fechou o negócio e recebeu parte do valor combinado, o então proprietário tinha plena ciência de que a lotérica já estava em processo de revogação pela instituição pública.

Mesmo ciente de que o estabelecimento tinha sido bloqueado pela Caixa, Waltecir é acusado de mentir para os proprietários nos dias seguintes à concretização do negócio, alegando que havia procurado o banco para tentar resolver o problema e que esperava uma solução, inclusive com apoio de "políticos importantes" de Mato Grosso do Sul.

Os compradores entraram com ação de execução na área cível da comarca de Dourados para tentar reaver o valor pago a Waltecir Cardoso Pereira. A defesa deles pediu bloqueio de bens, mas até agora não houve avanço no processo.

O Campo Grande News apurou que a abertura de inquérito foi requisitada pelo MPF (Ministério Público Federal) ainda no ano passado, com objetivo de investigar crime de estelionato contra a Caixa Econômica Federal.

Conforme a denúncia que chegou ao MPF e à Polícia Federal, Waltecir Cardoso Pereira teria iniciado o esquema fraudulento em outubro de 2024 com a retirada de R$ 150 mil do caixa da lotérica, supostamente para comprar parte de outro estabelecimento do mesmo ramo.

Para encobrir o desfalque financeiro, que, supostamente, alcançou prejuízo acumulado de R$ 351 mil até o encerramento das atividades da Lotérica São Bento, ele teria adotado uma série de práticas ilegais, entre as quais a captação de pessoas “laranjas” dispostas a emprestar suas contas em bancos digitais para emissão de “boletos fantasmas” em troca de comissões de R$ 70 a R$ 200. A denúncia afirma que entre as pessoas usadas no esquema estariam inclusive estudantes da UFGD.

“Ele me ofereceu a lotérica alegando que precisava se afastar para assumir um concurso público de dedicação exclusiva em Mato Grosso. Como já era funcionário da UFGD, me passou uma credibilidade enorme. Confiando nisso, contraí uma dívida de R$ 520 mil e paguei quase R$ 300 mil só de entrada”, conta Erickson Benites Lima, um dos compradores lesados.

Depois que assinou o contrato, Erickson foi até Sidrolândia para assumir a lotérica, mas descobriu que o sistema estava bloqueado. “Ele me enrolava com desculpas vagas, dizia não saber o motivo. Comecei a investigar por conta própria, pressionei antigos funcionários, analisei e-mails e documentos, e descobri que a lotérica já estava em processo de fechamento pela própria Caixa por conta de fraudes. Waltecir usava o sistema para registrar depósitos fictícios e pagar boletos fantasmas, desviando o dinheiro para contas pessoais dele. Tudo documentado pela própria Caixa Econômica”.

Erickson afirma que Waltecir sabia que a lotérica estava condenada, mas vendeu o estabelecimento mesmo assim, porque precisava do dinheiro para quitar a dívida com a Caixa. “Se não pagasse, iam acionar a Polícia Federal, isso o próprio gerente confirmou. Me induziu a contrair uma dívida de meio milhão de reais para salvar a pele dele. Me vendeu algo que ele mesmo destruiu”.

Lavou as mãos – O douradense diz que ao procurar a Caixa, foi tratado com total indiferença. “Disseram que eu ‘não era ninguém’ para eles, que só poderiam tratar com ele. E ele se aproveitou disso”, afirma.

Em fevereiro de 2025, a Caixa emitiu “Avisos de Irregularidade", informando a suspensão dos serviços da lotérica. Waltecir foi formalmente notificado pelo banco sobre a suspensão/revogação e tinha conhecimento do teor desses avisos, segundo a denúncia em investigação pela Polícia Federal. Mesmo assim, prosseguiu com a venda do estabelecimento, omitindo a real situação aos compradores.

Inicialmente, a Polícia Federal emitiu parecer concluindo pela “ausência de ofensa direta a bens, serviços ou interesses federais”, considerando o caso como estelionato entre particulares.

Entretanto, uma análise mais aprofundada dos fatos, especialmente da parte que citava autenticações indevidas e criação de caixa fictício para encobrir desvios, apontou indícios de dano direto e primário à operação e aos sistemas da CEF no âmbito da concessão lotérica. Diante dessa situação, a PF se convenceu que era assunto de sua competência e instaurou o inquérito para apurar prática de fraude diretamente contra a Caixa Econômica Federal. O procedimento tramita em sigilo.

O que diz a Caixa – Em nota enviada pela assessoria de imprensa, a Caixa informou, sem entrar em detalhes, que o funcionamento de lotéricas é fundamentado por regime de permissão obtido a partir de licitação, regido pela Circular Caixa nº 1.084/2025 e pelas leis nº 8.987/95 e nº 12.869/13.

“A Lotérica São Bento Ltda., em Sidrolândia (MS), foi encerrada em decorrência de previsões contidas na referida Circular”, informou o banco público. As leis citadas pela Caixa trazem regras e normas que precisam ser respeitadas pelas casas lotéricas.

O Campo Grande News procurou o advogado de defesa de Waltecir Cardoso Pereira, que prometeu encaminhar um posicionamento sobre as denúncias até sexta-feira (27), o que não ocorreu. O espaço segue aberto.

UFGD – Também em nota oficial divulgada em seu portal, a UFGD informou que recebeu manifestação relacionada ao caso por meio de seus canais oficiais de atendimento. “Após análise preliminar, verificou-se que os fatos relatados dizem respeito, a princípio, a situação de natureza particular, não estando relacionados ao exercício das atividades profissionais ou às relações institucionais no âmbito da Universidade”.

Entretanto, informou que a situação foi encaminhada para apreciação da Comissão de Ética Setorial da instituição, para análise no âmbito de suas atribuições. “A Universidade esclarece, ainda, que eventuais novos elementos ou indícios que estabeleçam relação com o exercício de atividades profissionais ou com o ambiente institucional poderão ensejar a reavaliação da situação e a adoção das medidas administrativas cabíveis”.

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