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Como entender a travessia do Rubicão

Por Lia Rodrigues Alcaraz (*) | 06/06/2024 07:22

A crise dos 9/10 anos, também conhecida como a travessia do Rubicão, é uma metáfora usada para descrever um momento de transição crucial na vida de uma criança, esta fase é marcada por mudanças significativas no desenvolvimento emocional, cognitivo e social.

A metáfora da travessia do Rubicão, originária da história de Júlio César, que em 49 a.C. atravessou o rio Rubicão com seu exército, desafiando o Senado romano e iniciando uma guerra civil, é usada para ilustrar este momento crucial na vida de uma criança. Assim como César tomou uma decisão irreversível que mudou o curso da história, a criança de nove anos atravessa um "rio" simbólico, onde as decisões e mudanças feitas nesta fase têm um impacto significativo no seu desenvolvimento futuro. É um momento de decisão, onde a criança começa a definir mais claramente quem é e quem quer ser, traçando um caminho que influenciará suas escolhas e comportamentos nos anos seguintes.

Hoje em dia essa crise não é vista apenas aos nove anos, com as mudanças tecnológicas e rapidez e disseminação de informações, as crianças começam a desenvolver uma maior consciência de si mesmas e dos outros e isso não ocorre apenas aos nove anos, pode ocorrer antes ou até depois, então entra em um período dos 8 aos 10, 11 anos. O que ocorre é que elas passam a compreender melhor suas próprias emoções e as emoções das pessoas ao seu redor,   este período é caracterizado por uma busca por autonomia e independência, o que pode levar a conflitos com figuras de autoridade, como pais e professores. A crise desse período é muitas vezes acompanhada por sentimentos de insegurança e ansiedade, pois a criança começa a questionar seu lugar no mundo e sua capacidade de enfrentar novos desafios, e socialmente, é uma fase crítica para o desenvolvimento das habilidades de interação com os colegas e amigos, pois as crianças começam a formar amizades mais profundas e complexas, baseadas em interesses comuns e valores compartilhados. Elas também começam a perceber a importância da aceitação social e podem sentir uma pressão maior para se conformar às normas do grupo. Nasce então uma necessidade de pertencimento que pode levar a conflitos internos, especialmente quando os valores pessoais entram em choque com as expectativas do grupo.

E não é apenas na parte emocional que ocorrem mudanças, cognitivamente, as crianças neste período estão em uma fase de transição entre o pensamento concreto e o pensamento mais abstrato. Elas começam a entender conceitos mais complexos e a fazer conexões mais profundas entre diferentes ideias. Esta é uma época em que a capacidade de resolver problemas de forma mais lógica e estruturada começa a se desenvolver. No entanto, essa transição também pode ser desafiadora, pois a criança pode sentir-se frustrada ao enfrentar tarefas que exigem habilidades de pensamento abstrato que ainda estão em desenvolvimento.

Durante esta fase crítica, o apoio dos pais, professores e cuidadores é fundamental. Eles devem fornecer um ambiente seguro e acolhedor onde a criança possa expressar suas emoções e explorar novas ideias sem medo de julgamento, é nessa fase que se torna importante incentivar a independência da criança, ao mesmo tempo em que se oferece orientação e suporte necessários para ajudá-la a navegar por esta transição complexa. Com o apoio adequado, como, acompanhamento psicológico à criança, e também aos pais, com sessões de aconselhamento psicológico, podem fazer as crianças emergirem desta fase mais fortes, mais independentes e mais preparadas para enfrentar os desafios futuros.

(*) Lia Rodrigues Alcaraz é psicóloga formada pela UCDB (2011), especialista em orientação analítica (2015) e neuropsicóloga em formação (2024). Trabalha como psicóloga clínica na Cassems e em consultório.

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