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Campo Grande, Sexta-feira, 24 de Maio de 2019

12/10/2018 08:14

Betynha se casou aos 12 anos, ia a escola para matar a fome e hoje é youtuber

A esteticista diz que tudo de ruim pode ser removido, com força de vontade

Thaís Pimenta
Betynha é esteticista, youtuber, tudo isso sendo ainda semianalfabeta. (foto: Thaís Pimenta)Betynha é esteticista, youtuber, tudo isso sendo ainda semianalfabeta. (foto: Thaís Pimenta)

É com o astral lá em cima que Elizabete Nunes de Souza Santana, de 59 anos, lembra da história de vida. Mesmo dos dias difíceis. "Quando ia para a escola era para ter o que comer'', diz a mulher hoje sorridente, mas que aos 12 anos de idade já encarava o primeiro casamento.

Em alguns momentos, a emoção toma conta do rosto, mas ela diz que agora só quer saber do futuro. Mesmo semianalfabeta, conseguiu formação em curso de estética, mas hoje a principal atração na rotina está no Youtube. Bisavó e esposa, Elizabete ainda agrega o título de Youtuber do canal Dicas da Betinha, "Para distrair a mente e para alegrar as pessoas", conta. Como fazer da dificuldade um impulso? É o que ela conta no Voz da Experiência de hoje.

Diploma é a prova da formação de Betynha. (Foto: Thaís Pimenta)Diploma é a prova da formação de Betynha. (Foto: Thaís Pimenta)

''Eu nasci em Dourados em uma família de 16 filhos. Minha mãe, naquela época, sofria demais e a gente também. A ponto de passarmos fome nós chegávamos, e não era coisa que acontecia de vez em quando. Eu ia pra escola, claro, pra estudar, mas me lembro da vista embaçar de tanta fome, a ponto de quase desmaiar. A gente ia pra escola para comer a merenda também, para matar a fome.

Com 5 anos, minha mãe me deu para uma família que não se interessava pelos meus estudos, só pelo meu trabalho. Eu estudei pouco, fui por pouco tempo para a escola, trabalhava para eles, de doméstica, fazia tudo em casa. Resumindo: eu perdi o meu estudo na juventude.

Aos 12 anos me casei para sair de casa e ir atrás da minha vida, queria sair daquela situação. Sofri muito no casamento, mas não quero falar disso não, porque hoje eu estou casada há mais de 20 anos com o homem que eu pedi a Deus, que eu ajoelhei todo dia pedindo, e Ele me ouviu. Se eu pudesse escolher hoje me casaria com ele, e ele comigo.

Betynha com seus 20 e poucos anos. (Foto: Acervo Pessoal)Betynha com seus 20 e poucos anos. (Foto: Acervo Pessoal)

Tive três filhos com o primeiro esposo, e quando me separei decidi que iria seguir os passos das minhas irmãs, na estética. Fui para São Paulo me libertar do passado e estudar. Trabalhava de diarista para fazer estudo de estética, mas sempre soube que queria voltar para Mato Grosso do Sul. Escolhi São Paulo porque me diziam que a vida lá era boa. Só que imagina, eu mal sabia ler, no meio de São Paulo. Tive que aprender, na marra, a ler, ao menos, as placas de ônibus.

Lembro de uma situação quando tive que pegar um ônibus para Humaita. Se escreve com 'h' mas eu não sabia disso. Esperava por um ônibus que começasse com "u". Fiquei horas no ponto de ônibus, com vergonha de pedir informação para as pessoas. Eu era jovem, tinha uma cinturinha bem fininha, magrinha, era bonita, nunca iam imaginar que eu não sabia ler. Para você ver como o estudo faz falta.

Fui soletrando e indo, lendo gibi da Turma da Mônica, sempre com vergonha de pedir ajuda. Agora me encontro bem, digo que consigo ler, mas muito pouca coisa. Sinto vontade de estudar, mas ainda não consigo porque meu irmão está doente e tem precisado de mim.

Me formei com muito custo e carrego meu diploma com um orgulho tamanho. Inclusive quase perdi ele numa chuva que deu aqui em casa, mas consegui recuperar. Hoje eu sei tudo, de shiatsu, dos métodos meridianos dos dedos, tudo. Chega uma pessoa com a coluna em 'v' aqui e sai retinha, com toda a gratidão do mundo.

Betynha posta no canal, filma, e edita, tudo pelo celular. (foto: Thaís Pimenta)Betynha posta no canal, filma, e edita, tudo pelo celular. (foto: Thaís Pimenta)

Eu tive que passar por uma luta quando cheguei aqui. Minha caçula era mocinha e tinha que levar ela junto quando cheguei em Campo Grande, em busca de emprego. Me lembro de bater na porta do salão do Adão, que fica ao lado do antigo Clube Libanês, e fui sincera, disse que precisava trabalhar, que estava passando por aperto, ele me disse que não tinha tantas clientes. Eu afirmei que conseguia cliente para ele. Fui panfletar na frente do banco ao lado e bombou de cliente, de um tanto que eu precisei chamar mais uma pessoa pra ajudar no salão.

Em determinado momento eu senti que precisava de um espaço meu, isso daz uns 22 anos. A gente morava de frente às Lojas Americanas, em uns cubículos. Comia marmita, eu e a pequena, e eu fui juntando dinheiro porque na época não tinha ninguém para ser fiador. Juntei tudo que dava para dar de calção até que consegui alugar um espacinho da 14 de Julho, que era a vontade desde o início.

Deu tão certo que eu consegui juntar dinheiro para comprar a minha casa aqui no bairro [Choophavila 2]. Desde então eu chamo minha casa e meu local de trabalho de império. É minha casa, humilde, mas tenho tudo que preciso.

Vejo que tive momentos difíceis mas hoje vivo momentos mais bons do que ruins. Vejo que é difícil você lidar com ser humano, mas desde que você tenha paciência, com seu bom querer, ele sai curadinho. Não tem coisa ruim que a gente não remove, basta força de vontade".

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