Ronaldo era faxineiro em relojoaria até virar dono e cuidar do tempo
Réplica de estação europeia na calçada anuncia que ali tem muita história para contar
Há 40 anos, Ronaldo Oliveira entrou em uma relojoaria como funcionário de serviços gerais, sem imaginar que ali começaria uma vida inteira dedicada ao tempo. Hoje, aos 58 anos, é relojoeiro e dono da própria loja na Rua Maracaju. No lugar, que é a vida dele há 12 anos, Ronaldo guarda relíquias desde 1960 no estilo bolso, corda e até aqueles clássicos de parede com pêndulo.
RESUMO
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Ronaldo Oliveira, 58 anos, dedica-se à arte da relojoaria há quatro décadas. Proprietário da Orion Relógios e Serviços há 20 anos, mantém uma loja na Rua Maracaju, em Campo Grande, onde guarda uma coleção estimada entre 4 e 5 mil relógios, incluindo peças raras desde 1960. Iniciando como funcionário de serviços gerais em Três Lagoas, Ronaldo aperfeiçoou-se através de cursos no Senai e experiência prática. Sua expertise é reconhecida por reparos complexos, como o conserto de um TAG Heuer cronógrafo suíço em 2021, que outros profissionais não conseguiram realizar. Ele observa a escassez atual de relojoeiros na cidade, que diminuiu de 40 para menos da metade ao longo dos anos.
Com tantos modelos, ele já nem sabe ao certo quantos relógios tem por ali, mas estima que seja entre 4 e 5 mil peças. Há vários que atravessam gerações e contam histórias, por isso são tão preciosos. Ronaldo lembra que o começo foi de observação e insistência lá em Três Lagoas.
“Eu fazia de tudo, mas ficava olhando. Gostava de ver como funcionava. Eu me interessei e o relojoeiro acabou me ensinando como desmontava, montava. Foi assim que eu fui aprendendo. Ninguém ensina fácil. Ele me passou o básico e eu fui aperfeiçoando. Fiz curso no Senai, estudei micromecânica. Foi tudo na prática”, completa.

Antes de assumir de vez a profissão, ele até tentou outros caminhos. “Eu queria ser militar, depois pensei em agronomia, mas não consegui seguir. Tinha que trabalhar. Aí o relógio falou mais alto”.
A primeira loja veio nos anos 1990, em sociedade com um amigo. Depois que ele faleceu, Ronaldo continuou sozinho. "Mantamos a nossa primeira loja, chamava Duarte Ribeiro Limitada, ele faleceu e eu fiquei sozinho. De lá pra cá assumi e passou a ser Orion Relógio e Serviços. Já tenho a marca há 20 anos. Me inspirei no cinturão de Orion. Achei um nome bom".
Enquanto arruma os relógios que não param de chegar, Ronaldo explica que o trabalho exige precisão e paciência. “Tem que ter o olho bom. Até trocar pilha parece fácil, mas não é. São muitos modelos, muitos tipos. Tem que praticar muito”.

Entre os desafios, um deles segue vivo na memória: o relógio cronógrafo suíço da TAG Heuer, em 2021. Ninguém conseguia arrumá-lo, nem os profissionais em São Paulo. Foi aí que o levaram até Ronaldo, que conseguiu arrumar. “Eu levei uma semana, mas consegui. Foi um dos mais difíceis.”
A loja reúne desde consertos simples até peças raras. “A gente trabalha com relógios atuais, simples, complexos e muito antigos. Tem relógio concha, de viagem, dos anos 1960 e 1970. Também temos modelos suíços antigos, digitais e analógicos”.
Do lado de fora, uma réplica de relógio de estação de trem chama atenção. “É inspirado nos modelos europeus antigos, daqueles de 1920, 1930”, ele conta.
Nem sempre foi fácil se manter no mercado. Ronaldo relembra o medo de perder espaço para os relógios chineses e digitais.
"Quando começaram a chegar os relógios chineses, lá pelos anos 1990, eu achei que a profissão iria acabar. Depois veio o smartwatch e pensei a mesma coisa. Mas o relógio tradicional continuou. Hoje ele é acessório, estilo, as pessoas usam os dois".
Apesar das mudanças, o movimento segue constante. “O pessoal procura muito conserto, troca de pilha, manutenção. Tem coisa que resolvo em minutos, outras levam mais tempo”.
Entre tantas peças, Ronaldo guarda algumas com carinho especial. Por lá o xodó é um Orient dos anos 60.
"Teve um relógio japonês que deu muito trabalho para conseguir peça original. O cliente virou amigo depois disso”.
Depois de quatro décadas trabalhando e se descrevendo como um apaixonado pelo que faz, ele resume o sentimento com simplicidade. “Eu sou grato. Escolhi uma profissão que amo. E hoje vejo que é uma área que ainda precisa de gente. Tem muita demanda e poucos profissionais.”
Técnico formado na prática, ele buscou conhecimento ao longo dos anos para se aperfeiçoar em um ofício cada vez mais raro. Hoje, observa que já não há a mesma oferta de cursos de capacitação como antigamente, quando muitos profissionais eram treinados por especialistas suíços, segundo ele.
A mudança impactou diretamente o mercado, que enfrenta escassez de mão de obra. Se no início da carreira havia cerca de 40 relojoeiros na cidade, atualmente esse número caiu para menos da metade, sendo ainda menor a quantidade de profissionais realmente capacitados.
A loja do Ronaldo fica na Rua Maracaju, número 400.
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