18/03/2019 07:49

Violência é tamanha, que mulheres se sentem mais seguras dentro do presídio

Thailla Torres
Em roda de conversa, história são parecidas, com mulheres que entram no mundo do crime coagidas pelo abusivo de seus parceiros. (Foto: Henrique Kawaminami)Em roda de conversa, história são parecidas, com mulheres que entram no mundo do crime coagidas pelo abusivo de seus parceiros. (Foto: Henrique Kawaminami)

Por todos os lados da casa, gritos. No quarto, o puxão de cabelo, o tapa e a porrada. Em mais um dia de violência, Cassiane sentiu na cabeça e nos braços a dor das facadas. Foi nessa ordem que ela sofreu uma das últimas agressões do ex-marido, antes de ser presa por tráfico de drogas. A história é parecida com as de outras mulheres que entram no mundo do crime levadas por seus parceiros. Tamanha dor é capaz de fazer quem apanha sentir até alívio em estar dentro do presídio.

Durante quatro anos foi essa a cena vivida por Cassiane. Aos 24 anos, ela é uma das personagens que o Lado B ouviu durante palestra sobre violência contra mulher, realizada dentro do Estabelecimento Penal Feminino Irmã Irma Zorzi. A proposta é fortalecer as mulheres, antes que elas recuperem a liberdade.

A primeira agressão foi no início da relação. Os dois passaram a viver juntos quando ela deixou o abrigo onde viveu desde a infância. A situação, ela nunca esqueceu. “Estávamos em casa, ele me bateu, foi um tapa forte. Mas eu achava que a culpa era minha, então perdoei”.

Facada no braço após violência do ex-marido. (Foto: Henrique Kawaminami)Facada no braço após violência do ex-marido. (Foto: Henrique Kawaminami)
As marcas também estão na testa. (Foto: Henrique Kawaminami)As marcas também estão na testa. (Foto: Henrique Kawaminami)

Mais uma vez a história se assemelha com a maioria das mulheres. Ele batia de noite e acordada dizendo “prometo que não vou te bater mais”.

“Ele era o homem mais lindo da vida, amoroso, o homem que um dia me tirou do abrigo. Não tinha como não perdoar um amor, o pai dos meus filhos, por isso, eu achava que tudo ia mudar”.

A cada perdão, ele batia sem dó. Na maioria das vezes sóbrio, mas a dor era maior quando estava bêbado. Os motivos? Não tinha motivos, a culpa era de Cassiane porque “não fez o que ele mandou”, “não limpou a casa direito” e “conversou com outro homem”. Os motivos não mudavam, enquanto Cassiane “pisava em ovos” para não apanhar. “Eu tinha tanto medo dele que eu só deixava a porta trancada, isso porque ele varria o terreno até a terra ficar bem lisa. Quando voltava, ele contava as pegadas para saber se alguém havia entrado na casa ou se eu havia saído”.

Todas as vezes ela achou que a porrada seria a última. “Sabe quando você reza para tudo acabar? Eu tinha fé que aquilo seria só uma fase”, tenta justificar Cassiane.

Quando ela conseguiu pedir ajuda pela primeira vez, estava com um corte profundo na parte superior da bochecha, próximo ao olho direito, depois de levar uma pedrada no meio da rua. “Precisei levar oito pontos, ficou roxo durante dias”.

Foi a agressão do ponto final para Cassiane, mas só o começo de mais uma violência para o ex-marido. “Ele me pediu perdão, chorou e eu voltei acreditando que havia mudado. Naquele dia, ele foi para o futebol, voltou bêbado e me deu uma facada na cabeça. Me defendi com braço e fui esfaqueada de novo”.

O medo faz elas sentirem até alívio dentro do presídio. (Foto: Henrique Kawaminami)O medo faz elas sentirem até alívio dentro do presídio. (Foto: Henrique Kawaminami)

Cassiane estava grávida de seis meses do terceiro filho quando levou a facada. Mesmo assim ela não denunciou, por medo, mas, os médicos da unidade de saúde chamaram a polícia.

Mas não foi medida protetiva que livrou Cassiane da violência. “Ele me ensinou a usar pedra e tínhamos uma dívida muito grande com droga. Foi quando ele me pediu para levar droga para outro lugar e a polícia me pegou com três toneladas dentro de um táxi, era muita droga”.

Condenada há oito anos de prisão, hoje a pena reduziu para cinco e ela aguarda ansiosa pela liberdade. “Aqui dentro pelo menos eu me livrei dele, mas vou enfrentar tudo lá fora porque hoje sei que a culpa não é minha e quero cuidar dos meus filhos”.

Às vezes, em momentos de desespero, Fabiane, de 22 anos, também vê como sorte os dias dentro do presídio. “Não sei o que ele teria feito comigo se eu tivesse continuado apanhando”, diz buscando respostas.

Presa há dois anos por tráfico de drogas, ela conta que a violência doméstica começou depois de descobrir o interesse dele em vê-la traficar. “No começo ele era muito carinhoso e amoroso, mas depois de um tempo eu vi que ele só estava com interesse em me ver fazer corre (vender drogas)”.

Não demorou muito para o primeiro tapa, com 2 meses de relacionamento ela se viu apanhando todos os dias. “Mas a violência maior foi um mês antes de eu ser presa. Ele me agrediu na frente de um monte de gente, me deixou jogada no chão e ninguém me ajudou”.

O medo tomava conta, junto da vergonha e do receio de pedir ajuda à família que um dia ficou em Rondônia. “Eu tinha largado minha família inteira por causa dele, eu pensava como seria ligar para os meus pais dizendo que eu apanhava e até traficava, não tinha essa coragem, não queria dar mais um desgosto”.

Juíza Jacqueline Machado em palestra. (Foto: Henrique Kawaminami)Juíza Jacqueline Machado em palestra. (Foto: Henrique Kawaminami)

Na última ameaça de morte, Fabiane chegou ao aeroporto de Bonito com destino a Fortaleza portando 17 quilos de droga. Não chegou a embarcar porque foi presa e hoje cumpre 13 anos de pena. “Ele é reincidente e mesmo assim peguei mais tempo de cadeia do que ele”, lamenta.

Longe da família e da filha, o medo da violência ainda não teve fim, por isso, ela foi uma das que mais questionou a juíza Jacqueline Machado, da Casa da Mulher Brasileira, sobre os seus direitos. “A gente está aqui dentro, mas a gente ainda teme lá fora. Não nego meu erro, sei que foi uma escolha minha ficar com ele, mas quando você tem medo é muito difícil tomar uma atitude. Eu achava que ele ia me matar”.

Projeto - Em Campo Grande, presídios femininos foram integrados nas ações da 13ª semana da “Justiça pela Paz em Casa”, com a apresentação de palestra a mulheres que cumprem pena nos regimes semiaberto e fechado. Ao todo, 65 internas participaram da ação na semana passada.

Com o tema “Violência contra a mulher – desigualdade de gênero”, a juíza falou sobre as formas de abuso e como enfrentar a situação.

 

Palestra falou sobre abusos e o que pode ser feito contra violência. (Foto: Henrique Kawaminami)Palestra falou sobre abusos e o que pode ser feito contra violência. (Foto: Henrique Kawaminami)
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