Organizações ambientais e de turismo criticam corredor logístico no Pantanal
Carta-manifesto contra ponte aponta riscos às onças, aumento do tráfego e pressão por corredor logístico
Um grupo de entidades ligadas ao turismo de natureza, comunidades tradicionais e organizações ambientais divulgou uma carta-manifesto contra a construção de uma ponte que pretende ligar o Pantanal de Mato Grosso do Sul ao de Mato Grosso, na região de Porto Jofre (MT). A obra, discutida desde 2024, integra um protocolo de intenções firmado entre os dois estados para a criação de um corredor logístico rodoviário entre os biomas.
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Entidades ligadas ao turismo, comunidades tradicionais e organizações ambientais lançaram uma carta-manifesto contra a construção de uma ponte entre os pantanais de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, em Porto Jofre. A obra, prevista no Protocolo de Intenções nº 01/2026, custaria entre R$ 50 e R$ 60 milhões. Os opositores alertam para impactos ao principal berçário de onças-pintadas do mundo, que movimenta cerca de 30 milhões de dólares anuais em turismo.
De acordo com o diretor das câmaras temáticas do IGR Pantanal MT (Instância de Governança Regional do Pantanal Mato-grossense), José Marcos Vargas, o objetivo da mobilização é chamar atenção para possíveis impactos negativos ao principal berçário de onças-pintadas do mundo, localizado no entorno do Parque Estadual Encontro das Águas. Segundo ele, apenas o turismo de observação de onças na região de Porto Jofre movimenta cerca de 30 milhões de dólares por ano.
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“Somos progressistas, não ambientalistas. Estamos defendendo, antes de tudo, nosso ganha-pão, ameaçado pelo desenvolvimentismo desorganizado que o governo está trazendo ao Pantanal”, afirmou Vargas. Ele destacou que a mobilização reúne entidades de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, incluindo o SOS Pantanal e o Instituto Homem Pantaneiro, com sede em Corumbá.
Carta aberta - Na carta divulgada, os signatários se posicionam contra a execução da ponte e o aumento do tráfego de veículos na Estrada Parque Transpantaneira. O documento argumenta que a região é considerada o principal destino mundial para observação de onças-pintadas, atividade que gera empregos e renda com base na conservação ambiental.
O manifesto alerta que a intensificação do tráfego pode elevar o risco de atropelamentos de fauna e descaracterizar a experiência turística, hoje baseada na condição rústica da estrada. Também há preocupação com a transformação da via em corredor logístico para transporte de commodities, com circulação de veículos pesados.
Segundo Vargas, além do impacto ambiental, a obra não se justificaria economicamente. “Vai ligar o nada ao lugar nenhum. Da ponte são cerca de 350 quilômetros para qualquer cidade, e com a ponte virá a pressão para asfaltamento, com consequências como atropelamento de fauna, como já acontece na rodovia de Corumbá. Depois virá a pressão para transporte de commodities, para escoar a soja de Mato Grosso até Porto Murtinho pela rota bioceânica”, disse.
Ele ainda afirmou que, na avaliação do grupo, o projeto atenderia interesses específicos. “Do nosso ponto de vista, essa ponte atende interesses estranhos ao Mato Grosso, sendo defendida por alguns produtores que têm propriedades nos dois estados”, declarou.
Protocolo - O extrato do Protocolo de Intenções nº 01/2026, publicado em fevereiro, no Diário Oficial de Mato Grosso, prevê a criação de um corredor rodoviário interligando os pantanais dos dois Estados, por meio da MT-060 e da MS-214, com a construção de uma ponte de concreto sobre o Rio São Lourenço, no final da Transpantaneira, em Porto Jofre.
A proposta prevê vigência de 48 meses para elaboração do projeto e execução. O investimento estimado para a obra varia entre R$ 50 milhões e R$ 60 milhões, com divisão dos custos entre os estados. A ponte teria cerca de 300 metros e substituiria a travessia atualmente feita por balsa.
Com a nova ligação, a distância rodoviária entre Corumbá e Poconé (MT) cairia de mais de 1.200 km para cerca de 324 km.
Críticas - A empresária Lisa Canavarros, que possui pousada na Transpantaneira, afirma que a construção não traz benefícios ao setor. “O Porto Jofre é a porta de entrada do Parque Estadual Encontro das Águas. É por ali que entram e saem turistas estrangeiros. Não faz o menor sentido construir uma ponte. O Pantanal já está sendo castigado e tudo o que não precisamos é de caminhão trafegando pela Transpantaneira”, afirmou.
Ela acrescenta que a região funciona como santuário de vida selvagem e que o modelo atual gera desenvolvimento sustentável. “Não queremos caminhão, não queremos concreto, não queremos fogo”, disse.
Propostas alternativas - Na carta, as entidades defendem que os recursos sejam direcionados para melhorias internas do Pantanal mato-grossense, como interligações regionais e acesso a áreas turísticas, ampliando o tempo de permanência dos visitantes e fortalecendo a economia local.
Os manifestantes concluem que decisões sobre a Transpantaneira e o Parque Estadual Encontro das Águas devem contar com participação pública e critérios técnicos rigorosos. “Desenvolver não é apenas construir infraestrutura, mas conservar aquilo que torna o território único. O Pantanal precisa continuar vivo, íntegro e selvagem”, afirma o documento.
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