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Política

Desenvolvimento e meio ambiente testam planos de governo de Riedel e Fábio Trad

Vale da Celulose e grandes obras expõem desafio de conciliar investimentos, fiscalização e proteção ambiental

Por Vasconcelo Quadros, de Brasília | 28/08/2026 15:31
Desenvolvimento e meio ambiente testam planos de governo de Riedel e Fábio Trad
Fábio Trad e Eduardo Riedel são os dois principais nomes na disputa pelo governo (Foto: redes sociais)

A concessão de incentivos fiscais, que hoje representa mais da metade dos R$ 22,5 bilhões previstos como receitas líquidas no orçamento de Mato Grosso do Sul para 2026, está no centro de uma equação que os candidatos mais bem colocados nas pesquisas, Eduardo Riedel (PP) e Fábio Trad (PT) terão de enfrentar: como conciliar desenvolvimento econômico e proteção ambiental diante da envergadura dos projetos que vêm transformando o Estado.

RESUMO

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Candidatos ao governo de Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel e Fábio Trad divergem sobre como equilibrar desenvolvimento econômico e proteção ambiental. Enquanto Riedel aposta na continuidade do crescimento com sustentabilidade como ativo, Trad propõe revisar incentivos fiscais e ampliar contrapartidas socioambientais. O debate ganha urgência com a expansão do Vale da Celulose e um relatório do Imasul que registrou aumento expressivo de fósforo no Rio Pardo após lançamento de efluentes da Suzano.

No Leste, o Vale da Celulose já se aproxima de 2 milhões de hectares de eucalipto, acompanhado por grandes investimentos industriais e logísticos que colocam Mato Grosso do Sul no mapa global da produção de celulose e aceleram a transformação econômica do território. Ao mesmo tempo, surgem preocupações sobre água, nascentes e outros impactos ambientais associados à expansão das atividades econômicas.

Os dois candidatos partem de visões diferentes sobre o desenvolvimento. Riedel aposta na continuidade e aceleração de um ciclo baseado em investimentos, industrialização, infraestrutura, produtividade e agregação de valor, incorporando a sustentabilidade como ativo econômico e vantagem competitiva.

Trad propõe reorientar esse modelo, com maior desconcentração regional, revisão dos incentivos fiscais e contrapartidas sociais e ambientais. Embora os dois planos tratem desenvolvimento e meio ambiente em frentes distintas, a dimensão dos projetos em curso torna cada vez mais difícil separar as duas agendas. A expansão da celulose no Bolsão é um exemplo: estratégica para a economia, mas também um fenômeno territorial que exige planejamento diante dos possíveis impactos sobre recursos hídricos e comunidades.

Impactos territoriais

A expansão da silvicultura e da indústria de celulose altera rapidamente a paisagem econômica, o que leva especialistas e pessoas que acompanham os impactos ambientais a defenderem que o crescimento seja submetido a planejamento territorial capaz de antecipar seus efeitos. A preocupação é com a velocidade e a escala de uma expansão que precisam ser acompanhadas de mecanismos para estabelecer limites, proteger recursos naturais e preservar as condições de vida das comunidades.

O gestor ambiental Valticinez Santiago, de Selvíria, aponta entre as principais demandas a regulamentação das áreas plantadas, a definição de limites para a expansão do eucalipto e a discussão sobre a permanência nos municípios de parte dos benefícios econômicos gerados pelos grandes empreendimentos. Para ele, a preservação de nascentes e matas ciliares deveria acompanhar o processo de industrialização, e não aparecer apenas posteriormente como tentativa de reparação dos impactos.

A pesquisadora Marine Dubos-Raoul, da UFMS, converge na necessidade de um olhar territorial. Em conversas com pesquisadores das áreas ambiental e dos povos e comunidades tradicionais, ela aponta o zoneamento como uma possibilidade para estabelecer limites à expansão do eucalipto e proteger recursos hídricos, polinizadores e comunidades camponesas. A preocupação está sobretudo nas consequências de longo prazo de uma expansão que avance sem planejamento suficiente.
O alerta recoloca a questão em outros termos: o desafio não é escolher entre desenvolver ou preservar, mas definir como, onde e até que ponto uma atividade econômica pode avançar sem comprometer os recursos dos territórios que sustentam o próprio desenvolvimento.

Competitividade e mudanças

No plano de Eduardo Riedel, o desenvolvimento econômico aparece como continuidade de um ciclo que o governo considera bem-sucedido. A proposta é aproveitar a infraestrutura já construída, ampliar a atração de investimentos, fortalecer a indústria e o agronegócio, agregar valor às cadeias produtivas e elevar a competitividade de Mato Grosso do Sul. O programa também aposta em inovação, bioeconomia, economia verde e tecnologias de baixo carbono como instrumentos para uma nova etapa de crescimento.

A diferença em relação a Fábio Trad começa no diagnóstico. O candidato do PT reconhece a importância dos investimentos e das cadeias de agronegócio, celulose e proteína animal, mas sustenta que o crescimento ocorreu de forma concentrada e dependente de commodities. Propõe, por isso, uma política de neoindustrialização verde, interiorização dos investimentos e maior agregação de valor. No caso da celulose, o plano a trata simultaneamente como cadeia estratégica e como atividade cujo impacto territorial precisa ser planejado.

É nos incentivos fiscais que essa diferença se torna mais objetiva. Riedel trabalha com a transição para uma economia menos dependente dos benefícios tributários, apostando em produtividade, infraestrutura, qualificação e ambiente de negócios para preservar a competitividade do Estado. Trad propõe revisar a política de incentivos e vinculá-la a contrapartidas de emprego, qualificação, inovação, redução de emissões, eficiência energética, recuperação ambiental e descarbonização. A proposta do candidato reforça que não basta tratar o crescimento pelo volume de investimentos atraídos. Na sua visão, é necessário avaliar junto com os incentivos o retorno econômico, social e ambiental antes de antes da renúncia fiscal.

A mesma diferença aparece quando se olha para o principal órgão de fiscalização ambiental do Estado, o Imasul. Riedel mantém a agenda do Estado Carbono Neutro, a economia verde, a segurança hídrica, o saneamento e a valorização econômica dos ativos ambientais. A sustentabilidade, nesse desenho, é apresentada também como oportunidade econômica, capaz de gerar novos mercados, investimentos e vantagens competitivas.

Trad coloca uma camada mais regulatória. Seu plano prevê o fortalecimento do Imasul por meio de concursos, modernização tecnológica, monitoramento remoto e inteligência ambiental, além de fiscalização, proteção de nascentes e recuperação de bacias. A diferença não está em ser favorável ao desenvolvimento ou à proteção ambiental, mas no papel atribuído ao Estado: Riedel enfatiza o poder público como indutor da competitividade, capaz de incorporar a variável ambiental ao crescimento econômico; Trad atribui ao Estado uma função mais ativa de indução, regulação e controle.

Rio Pardo e Ilha Solteira

Um episódio recente no Rio Pardo concretizou o conflito entre expansão industrial e proteção ambiental. Relatório do Imasul apontou forte aumento da concentração de fósforo na água após o ponto de lançamento de efluentes da fábrica da Suzano, em Ribas do Rio Pardo. Antes do lançamento, quatro amostras registraram cerca de 90 mg/l; depois, os índices chegaram a 1.281 a 3.037 mg/l. O órgão relacionou o excesso de nutrientes à proliferação de plantas aquáticas no reservatório da Usina do Mimoso.

A vegetação avançou pelo Rio Pardo até Bataguassu, afetando um sistema que desemboca no Rio Paraná e já interferindo na operação da usina. A Suzano afirma cumprir os parâmetros do licenciamento e aponta outros fatores de degradação da bacia. O dado central, porém, é a alteração expressiva da qualidade da água identificada pelo próprio órgão fiscalizador.

O caso remete a Ilha Solteira: em agosto, a Justiça condenou a Cesp e a Rio Paraná Energia a pagar R$ 291,2 milhões, mais juros, a Selvíria por danos ligados ao reservatório formado em 1973. Corrigido, o valor supera R$ 410 milhões. A ação foi proposta em 2009. Um recurso que será impetrado na justiça por Santiago reivindica que esses recursos da sentença fique no município.

Os casos não são diretamente comparáveis, mas revelam um ponto comum: grandes empreendimentos transformam territórios em escala e exigem planejamento que incorpore prevenção, fiscalização, compensação e reparação ambiental. A questão para MS é saber se essa estrutura cresce na mesma velocidade da expansão econômica.

O Vale da Celulose funciona, assim, como um teste concreto para as duas visões. Na medida em que as campanhas eleitorais avançam, os candidatos terão de responder a uma questão básica: quais são os limites ambientais e hídricos que precisam ser conhecidos antes que a nova etapa da silvicultura em expansão seja consolidada?