Área queimada recua, mas período crítico para incêndios preocupa em MS
Extensão é inferior a 10% do total registrado em 2024, mas o Estado entra em alerta com El Niño em alta

Mato Grosso do Sul entra no período mais delicado da temporada de incêndios com cerca de 146 mil hectares queimados entre janeiro e 27 de agosto deste ano. A área corresponde a menos de 10% dos 1,719 milhão de hectares atingidos no mesmo período de 2024, ano em que o Estado passou por forte atuação do El Niño. Apesar da diferença expressiva, o avanço da estação seca coincide agora com o fortalecimento do fenômeno climático, combinação que mantém o Estado em alerta para os próximos meses.
RESUMO
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A avaliação é do diretor do Departamento de Políticas de Controle do Desmatamento e Incêndios do MMA (Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima), João Paulo Sotero. A entrevista foi concedida no contexto do “Diálogos Federativos - Emergências Climáticas 2026/2027”, sobre as ações do governo federal para o enfrentamento do El Niño e dos impactos climáticos na Região Centro-Oeste.
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A escolha de 2024 como referência não ocorre apenas pela dimensão dos incêndios registrados naquele ano. Segundo Sotero, o período também foi marcado pelos efeitos de um El Niño forte. O fenômeno começou em 2023 e alterou a estação chuvosa de 2023/2024, contribuindo para as condições enfrentadas posteriormente durante o período seco. Em 2025, por outro lado, a temporada foi considerada mais tranquila.
Agora, um novo El Niño ganha força justamente quando Mato Grosso do Sul entra na fase mais crítica para os incêndios. Para Sotero, embora a situação atual seja muito menos grave que a de 2024, a combinação entre seca e fortalecimento do fenômeno exige atenção.
“A situação é muito menos problemática que em 2024, mas a gente está começando agora o período, a famosa temporada de incêndios, que tem um sombreamento com o período seco, agravado pelo El Niño”, afirmou. Sotero lembrou que o fenômeno associado à temporada crítica de 2024 havia começado em 2023 e afetado o período chuvoso de 2023/2024. Agora, um novo El Niño, iniciado em 2026, está em processo de fortalecimento e, segundo as projeções citadas pelo diretor, pode produzir efeitos também em 2027.

A semelhança entre os dois períodos, porém, não significa que 2026 repetirá o cenário de 2024. Sotero ressalta que um El Niño não se comporta exatamente como outro e que ainda não é possível determinar por quanto tempo o fenômeno atual permanecerá forte. As projeções se estendem para o próximo ano, enquanto outros fatores climáticos também podem interferir na dimensão dos impactos.
Durante o encontro, a ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, apresentou projeções que reforçam o estado de atenção. Segundo ela, o El Niño de 2023/2024 foi muito forte e levou a temperatura das águas do Oceano Pacífico a 2,2°C acima da média. Para 2026/2027, as projeções apresentadas pelo governo indicam que essa diferença pode chegar a 2,7°C, com pico de intensidade previsto entre setembro e novembro.
Para o Centro-Oeste, o cenário apresentado pela ministra aponta atraso das chuvas e temperaturas acima da média. Também existe possibilidade de escassez hídrica, principalmente no norte de Mato Grosso e de Goiás, aumento da demanda por irrigação, impactos sobre pastagens e maior risco de incêndios. O período considerado crítico para o fogo na região se estende de julho a outubro.
Abaixo da média - Embora as projeções climáticas exijam atenção, os indicadores de 2026 são, até agora, mais favoráveis. O presidente do Ibama, Jair Schmitt, informou que a área queimada no Centro-Oeste entre janeiro e agosto está cerca de 32% abaixo da média histórica. No Brasil, a redução é de aproximadamente 37%.
A comparação com a média histórica é utilizada porque 2025 teve uma temporada considerada tranquila, conforme explicou Sotero. Dessa forma, o desempenho de 2026 não é avaliado apenas em relação a um único ano.
O monitoramento de probabilidade de incêndios apresentado pelo Ibama apontava 23 municípios do Centro-Oeste em alerta vermelho, 154 em alerta laranja e 22 em alerta amarelo. Para Schmitt, mesmo com a área queimada abaixo da média, o cenário climático provocado pelo El Niño exige o máximo de atenção e preparação.
Pantanal, Cerrado e Amazônia foram apontados pelo presidente do Ibama entre os biomas vulneráveis aos incêndios. Em Mato Grosso do Sul, Sotero destacou Pantanal e Cerrado como áreas prioritárias para a atuação nesta temporada.
Estrutura reforçada - Além das condições climáticas, outra diferença em relação a 2024 está na estrutura disponível para enfrentar os incêndios. Sotero afirma que o poder público chega mais preparado à temporada de 2026, com ampliação de brigadistas, aeronaves e agentes da Força Nacional, além do fortalecimento dos Corpos de Bombeiros.
Mato Grosso do Sul recebeu, em 2025, equipamentos financiados pelo Fundo Amazônia para reforçar a estrutura estadual de combate ao fogo. Segundo Schmitt, mais de R$ 527 milhões do fundo foram disponibilizados para estados da Amazônia e também do Centro-Oeste, incluindo Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Goiás, para estruturar os Corpos de Bombeiros.
Os investimentos possibilitaram a aquisição de mais de 500 veículos, além de equipamentos de proteção individual. Os números apresentados pelo presidente do Ibama correspondem ao conjunto dos estados beneficiados e não exclusivamente a Mato Grosso do Sul.
No âmbito federal, Sotero informou que os recursos para combate aos incêndios e controle do desmatamento aumentaram 138% entre 2023 e 2026. Em 2025, foram investidos cerca de R$ 800 milhões. Neste ano, o orçamento supera R$ 1,023 bilhão, incluindo recursos extraordinários relacionados à preparação para o El Niño.
Não há, entretanto, uma parcela desse valor previamente reservada para Mato Grosso do Sul. Segundo Sotero, a estratégia federal permite deslocar equipes e equipamentos conforme a evolução dos incêndios em cada região.
“Se a situação do Mato Grosso do Sul ficar cada vez mais complexa, nós vamos deslocar equipamentos, pessoas para o combate”, afirmou.
Schmitt informou ainda que a estrutura federal reúne mais de 272 bases operacionais e quase 7 mil profissionais, entre brigadistas e operadores da Força Nacional de Segurança Pública, que atuam de forma articulada com os estados.
A preparação também envolve estruturas de acompanhamento e coordenação. Segundo Sotero, a Casa Civil mantém desde maio uma sala de situação estratégica para acompanhar o El Niño. No fim de julho, também foi instalada a sala de situação do Centro Integrado Multiagências de Coordenação Operacional Nacional, coordenado pelo Ibama e direcionado às operações de combate aos incêndios.
Ação humana - Além do El Niño e da estiagem, Sotero afirma que mais de 95% dos incêndios começam a partir de alguma ação humana. Por isso, a principal preocupação para Mato Grosso do Sul está na combinação entre condições climáticas favoráveis à propagação das chamas e o uso do fogo.
Atualmente, a queima está suspensa no Estado. O diretor ressaltou que o uso do fogo sem autorização é crime e pediu que a população evite a prática durante o período seco. “Se nós, seres humanos, não riscamos o fósforo no período seco, a gente vai ter menos incêndio”, afirmou.


