28/05/2019 06:48

Cidade falida. Vender sangue para pagar dívidas

Mário Sérgio Lorenzetto
Cidade falida. Vender sangue para pagar dívidas

Quem estuda economia sabe que a cidade de Memphis, no Tennesse, EUA, é famosa mundialmente pelos churrascos e pelas falências. Campo Grande caminha para competir com a cidade norte americana. A coisa extraordinária é o quão relativamente indolor parece ser esse processo. Tanto para os gringos quanto para os campo-grandenses, a ideia mediana é de que aqueles que entram em falência são irresponsáveis. Mas não é tão simplista assim. Um dos grandes enigmas é que a economia capitalista mais bem sucedida do mundo e a mais bagunçada parecem ser construídas sobre um fundamento de fácil fracasso financeiro.

Cidade falida. Vender sangue para pagar dívidas

Crédito fácil, falência fácil?

Memphis está em muitos livros contemporâneos e matérias jornalísticas. Campo Grande continua como sempre esteve - uma bela desconhecida do mundo. Mas elas fascinam os estudiosos pela ubiquidade e proximidade tanto do crédito fácil quanto da falência fácil. Há uma variedade enorme de bancos e casas de crédito - sucessoras dos agiotas - que permitem a todos comprar dinheiro como se comprassem pãozinho quente.
A figura de Memphis mais conhecida é do "conselheiro de imposto", em verdade são auxiliares dessas espeluncas, denominadas casas de crédito. Essa figura demoníaca ainda não existe em Campo Grande, mas alguns "experts" estão planejando a abertura de escritórios assemelhados.
Para vender dinheiro fácil há todo tipo de jogada nas duas cidades. Há aqueles que oferecem empréstimos contra garantia do carro, outros se especializaram em descontos de cheques a juros de 100% até 200%. E há penhores dos mais variados. Desde aparelhos de televisão até ferro de passar roupa servem como garantia.

Cidade falida. Vender sangue para pagar dívidas

Pague a sua dívida com a venda do sangue.

Em Memphis, para aqueles que já empenharam todos os seus bens ou não têm mais o que fazer para pagar as dívidas, resta uma solução devidamente legalizada: a venda do próprio sangue. Pagam US$55 para doadores de sangue. Por enquanto, em Campo Grande o sangue é doado, um gesto humanitário.
É bem verdade que as consequências do não pagamento de um empréstimo em Memphis são muito menos graves do que o risco de morrer que Antonio passou em Veneza (na peça de Shakespeare "Mercador de Veneza", o judeu Shylock cobra uma libra de carne do desafortunado Antonio).
Não há prédio em Memphis mais lotado que o da Corte de Falências, tal como ocorre em Campo Grande com os milhares de processos de falências, concordatas e dívidas que correm na justiça. O sistema parece funcionar tranquilamente nas duas cidades. Um a um, os indivíduos e os casais que acabaram insolventes sentam com um advogado que negocia a seu favor com os credores. Na maioria dos casos chegam a um acordo. Antigamente tanto nos EUA como no Brasil não havia prisões para os devedores. Ainda que passaram a constar nos textos legais, na prática, elas não ocorrem. Tanto ricos quanto pobres, as pessoas parecem considerar a falência como um "direito inalienável", quase a par com a "vida, a liberdade e a busca da felicidade".

Cidade falida. Vender sangue para pagar dívidas

O falido de hoje pode ser o bem sucedido de amanhã.

Certamente todos sabem quem foi Henry Ford. Sua história de sucesso e de transformação dos métodos de produção industrial o tornaram bilionário e famoso mundialmente. Mas nem todos sabem que a Ford foi dado o direito de fracassar e de começar novamente. Ford foi um falido antes de se tornar um símbolo de sucesso.
Mas o que ocorre em Memphis e em Campo Grande é um tanto diferente. A imensa maioria dos endividados não são empresários que tentaram e fracassaram. São apenas pessoas comuns que não podem pagar suas contas. As falências foram pensadas e estruturadas para ajudar empresários e os seus negócios. Todavia, nas duas cidades, mais de 90% dos endividados são classificados como não comerciais. O principal motor da falência acaba sendo não o empreendedorismo, mas a insolvência. E com ela tornando-se crônica, a cidade será falida.

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